Pepeu Gomes sobre biografias: “Talvez só se for falando do meu lado bom”.

Por Tácito Costa

No domingo (13), a Tribuna do Norte publicou entrevista com Pepeu Gomes, que esteve em Natal para se apresentar no Prêmio Hangar. Lá pras tantas o repórter Yuno Silva pergunta se o cantor tem restrições se alguém quiser escrever sobre ele. Diferente dos seus colegas (Roberto, Chico, Milton…), Pepeu vai direto ao ponto, sem disfarces ou subterfúgios: “Talvez só se for falando do meu lado bom.” (aqui).

Pra mim está muito claro o que esse pessoal “entende” por biografia. E mais claro ainda que devemos nos opor firmemente aos obscurantismo defendido por eles. Podem ser cantores e compositores geniais, mas se perderam completamente nessa discussão. Fiquei com a impressão de que Caetano, em seu último artigo no Globo, que publicamos aqui, se deu conta da mancada que deu em apoiar publicamente a censura às biografias. Um texto confuso, típico de quem quer justificar o injustificável e encontra sérias dificuldades pra isso.

Eu não sou leitor contumaz de biografias e autobiografias. Tanto que lembro bem todas que li. Cabem nos dedos das suas mãos. Prefiro a ficção. Acho-a mais sincera, mais verossímil.

A primeira que li foi “Balzac. Romance de sua vida”, de Stefan Zweig. E a última foi “Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão”, de Lira Neto. Acho que o poeta Demétrio me emprestou, não compraria.

Entre as duas percorri “Confesso que Vivi”, de Neruda, “Freud – Uma Vida Para o Nosso Tempo”, de Peter Gay, “Chatô, o rei do Brasil”, de Fernando Morais, “Minha razão de Viver”, de Samuel Wainer, “A Regra do Jogo”, de Cláudio Abramo, “O velho Graça”, de Dênis de Moraes, “Viagem à Semente”, de Dasso Saldívar, sobre García Márquez, e “Viver para contar”, a autobiografia do escritor colombiano.

Duas que, infelizmente, não consegui chegar ao fim: “Heidegger – Um Mestre na Alemanha entre o Bem e o Mal”, de Rüdiger Safranski, e “Clarice”, de Benjamin Moser.

No geral, leituras ao bel prazer, ou ao bel acaso, sem nada que as amarrem umas às outras (exceções as que abordam o jornalismo: sobre Wainer, Chatô e Abramo).

Como nos demais gêneros o que existe é biografia boa ou ruim, independente de ser escrita por jornalista, historiador ou acadêmicos e escritores em geral. Às vezes, apresentam pesquisa demais e estilo de menos; noutras pesquisa de menos e maneirismo demais. Tem de achar o meio termo. Pelo menos pra mim funciona assim, do contrário o livro será forte candidato a ficar pelo meio do caminho.

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Marcos Silva
    Marcos Silva 17 de Outubro de 2013 17:00

    Biografia é um gênero muito difícil de ser praticado, entendo que significa apresentar uma vida sem perder de vista o mundo em que ela foi possível e onde atuou. Nenhum profissional detém monopólio sobre as biografias, existem exemplos de qualidade que foram escritos por historiadores, jornalistas, ficcionistas – teatro e cinema se dedicam, às vezes muito bem, a ele.
    Gosto muito da biografia de Lutero escrita por Lucien Febvre, “Um destino: Martinho Lutero”. Gregorio Marañon escreveu o belo livro “O Conde-Duque de Olivares” (dedicado ao valido e ministro de Felipe IV, de Espanha), embora sua obra-prima seja mesmo “Don Juan”, ensaio sobre o personagem ficcional. No Brasil, destaco “Um estadista do império”, de Joaquim Nabuco, e “O Marquês de Olinda e seu tempo”, de Câmara Cascudo, brilhantes digressões sobre o período imperial a partir dos dois personagens enfocados. No gênero memorialístico, parente próximo da (auto-)biografia, dois grandes exemplos brasileiros são “Memórias do cárcere”, de Graciliano Ramos, e “Memórias de um soldado”, de Nelson Werneck Sodré.
    “A vida da Galileu Galilei”, de Bertolt Brecht, é uma biografia teatral fascinante. Gosto muito de “O homem que matou o facínora”, de John Ford, grande reflexão sobre o que significa a vida de cada um. Sem esquecer de “Cidadão Kane”, de Orson Welles.
    Mário de Andrade, na famosa carta a Câmara Cascudo em que critica duramente a biografia “O Conde d’Eu”, elenca personagens potiguares merecedores de biografias, ao menos dois seriam objeto de livros do etnógrafo natalense – Auta de Souza e Henrique Castriciano.

  2. Anchieta Rolim 17 de Outubro de 2013 18:24

    Tenho apenas quatro biografias. A dos Beatles de Bob Spitz, a de Heidegger – Um Mestre na Alemanha entre o Bem e o Mal, que não lembro o nome do autor, a de Vincent Van Gogh de Steven Naifeh e Gregory White Smith e a de Noel Rosa, que também não lembro o autor. E sinceramente me bastam. Não sou chegado a biografias não.

  3. Marcos Silva
    Marcos Silva 17 de Outubro de 2013 23:05

    Acabei de ler texto de Fernando Morais sobre o lenga-lenga das biografias. Ele disse que se não fizer freelance, não tem dinheiro para o supermercado.
    Mas a Cia. das Letras não fornece cesta básica? Poderíamos fazer uma campanha nacional – um quilo de alimento não perecível para o pobre Fernando.
    Em New Orleans, existe um sanduíche chamado Po’boy (poor boy). O MacDonalds brasileiro bem que poderia lançar o Po’Fernando.

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