Pequena história de quase um livro

Os livros sempre estiveram ao alcance de nossas mãos na infância. Em casa dos meus avós, prateleiras envolviam as paredes do quarto da televisão, em nossa casa, uma enciclopédia de capa dura azul marinho e uma coleção de artesanato, com quatro volumes, enfeitavam a estante de madeira da sala. Na casa de vovó Ana, os livros eram disquinhos coloridos: vermelho, azul, verde e amarelo. Nos veraneios de janeiro, eles descansavam abertos em baixo das redes e sobre os peitos dos dorminhocos. Também se espichavam na praia entre guarda-sol e protetor solar.

Eu caminhava em círculos pelo quadrado mágico do quarto da televisão. Tudo que importava ali eram os livros de vovô. Não me recordo que minha avó tivesse algum livro designado para ela mesma. Exceto as revistas de palavras-cruzadas difíceis. Todo o movimento de leituras se dava ali. As prateleiras ficavam muito a cima das nossas cabeças, porque, “aqueles livros não eram para crianças”. E vez por outra, os adultos deixavam escapar que era preciso dar fim “a um livro”. Sorte que criança imagina e emenda as coisas: “não é possível que o Senhor, papai, ache esse homem formidável?” FORMIDÁVEL? Minha filha! Ele é terrivelmente formidável. Minha tia fez um gesto estabanado com as mãos. Vovô olhou para mim e disse: “veja bem, uma coisa poder ser formidável e terrível ao mesmo tempo.” “Qual livro, vovô?”- “Qual?” Ele não está mais por aqui. Ele é terrível. E essa foi a minha primeira lição de palavras-cruzadas.

A enciclopédia azul marinho foi “presentada” a minha mãe a contragosto. Ela se deslumbrou diante dos vinte e três livros e o meu tio disse pode “levar”. Minha tia falou que já tinham sido dados a uma amiga. Esse acontecimento me trazia ressentimentos. Mas, brincava com eles soletrando as letras impressas nas lombadas. Também imaginava que o azul marinho, o vermelho e o fio dourado eram o uniforme do homem formidavelmente terrível.

Os quatro volumes dos livros de artesanatos eram os nossos preferidos. Algumas receitas davam para testar, e outras eu as imaginava fazendo. Sim. Fiz colares de argila e um grande pufe com orelhas de cachorro. E quando faltou papel para a receita de uma pipa, o livro quatro foi “pelos ares”.

Parem de brincar com a radiola. Sentem para ouvir as histórias. Isso não é brincadeira. E vovó falava e falava, mas, nada disso chegava aos nossos ouvidos.

De tanto virar os disquinhos de um lado para o outro, algumas faixas ficaram aranhadas justamente na parte que o lobo engolia a vovó: “Que grande goela é a minha.” Voltávamos o braço da vitrola para ouvir de novo, e de novo, e de novo o medo do lobo.  Mais tarde, fazendo um dos inúmeros trabalhos da faculdade,li que o tema central da história de Chapeuzinho “é a ameaça da devoração”. Brinquei com isso a infância inteira. Terrível.

Os livros que iam à praia eram sempre os mesmos: Júlia, Sabrina, Bianca e Papillon. Meu, tio dizia que era o único que prestava, os outros  – “mel com açúcar.”  Eu lia os títulos para ver se encontrava alguma coisa doce por ali: LUZ DA MINHA VIDA, NOITES DE TORTURA, VIAGEM SEM VOLTA, PROMESSA DE FELEIDADE. Na hora do jantar, tia Maria contava com entusiasmo aparente – a terrível, formidável, terrível história de Papillon o homem que fugiu do inferno.

E parte das minhas memórias são os livros da minha infância! FORMIDÁVEL!

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. María Charlla de Souza Araújo Nascimento 2 de agosto de 2021 6:31

    Que maravilha

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