Dersu Uzala: Ecologia, Semiótica e Arte

O explorador, cartógrafo e escritor Vladimir Arseniev percorreu a taiga da região siberiana do Uçuri ao longo de mais de vinte anos de expedições. Numa delas, em 1902, conheceu o caçador nômade Dersu Uzala. Nasceu entre os dois uma profunda amizade, que o escritor reconstruiu no livro Dersu Uzala, publicado em 1923, em que se baseia o filme homônimo que Akira Kurosawa dirigiu em 1975. Essa amizade nascida entre as montanhas simboliza o diálogo e a miscigenação possíveis entre cultura científica e outros saberes e métodos de aproximação ao real. É o que defendo no ensaio O Pequeno Homem das Montanhas, publicado pela Fortunella Casa Editrice em 2014, uma viagem transdisciplinar que – usando como operadores a narrativa literária de Arseniev e a cinematográfica de Kurosawa – se interroga sobre questões epistemológicas cruciais como as relações entre sujeitos humanos e ambientes não urbanos, o trinômio sujeito-objeto-representações, os conceitos de híbrido, de humano e não humano, de vivo e não vivo, de relação direta e mediada com o real. Na minha visão, a vida e a obra de Arseniev encarnam a riqueza, a polifonia e a intrínseca mestiçagem de uma ciência não fechada, de uma ecologia dos conhecimentos que faz dialogar e hibrida certezas e incertezas, rigor e sensibilidade. A vida de Dersu, por sua vez, encarna um modo de ser, de conhecer e de viver que faz da instabilidade, da imponderabilidade, da incerteza, da mudança incessante o húmus para o florescimento de uma ética do cuidado e da solidariedade. Estilos de vida, ambos, cada vez mais ameaçados. Mas seu eco conseguiu chegar até nós e ainda podem instigar mudanças em nossos modos de ser, de conhecer e de viver.

O texto a seguir, publicado no blog O Condor Errante em novembro de 2011, condensa algumas das questões aprofundadas em O Pequeno Homem das Montanhas.

Arseniev e Dersu se conheceram em 1902, durante a primeira expedição do cartógrafo à taiga uçuriana em cujas montanhas, por acaso, encontrou o caçador de etnia gold. Fascinado por Dersu desde o começo, o Capitão, como o gold costumava chamá-lo, estreitou em pouco tempo um profundo vínculo afetivo com aquele pequeno homem da floresta. Nasceu entre os dois uma relação de intensa amizade, de mútuo respeito e de recíproca admiração. Durante as três expedições em que Arseniev ficou ao lado de Dersu – além da de 1902 em que se conheceram, estiveram juntos em mais duas de, respectivamente, 1906 e 1907 – o caçador lhe salvou a vida em várias ocasiões graças à sua atenção sempre desperta e aguçada, à sua sensibilidade sensorial extremamente afinada, à sua generosidade e o seu desprendimento. Da mesma forma, Arseniev contribuiu em algumas ocasiões a tirar o amigo de perigos, o ajudou na caça, serviu-lhe de prótese visual quando seus olhos começaram a falhar-lhe.

À medida que ia conhecendo melhor o gold, Arseniev o admirava e apreciava mais e sua relação simbiótica com a taiga, seus sentidos sempre vígeis e alertas, sua audição, seu olfato e sua sensibilidade tátil extremamente sutis, sua incrível capacidade de perceber os mínimos movimentos, as mais leves variações do ambiente ao seu redor, de prever mudanças climáticas, perigos ou circunstâncias favoráveis, de interpretar os sinais do vivo e do não vivo, sua formidável intuição fizeram com que o Capitão se sentisse confiante quando estava do lado dele.

Arseniev e Dersu tinham distintas estratégias de interação com o ambiente: o caçador gold praticava uma atenção plena para as mais diversas manifestações da natureza, enquanto a atenção do escritor estava direcionada para elementos previamente concebidos como significativos dentro de suas grades conceituais. Tinham diferentes percepções da taiga e de si mesmos com relação a ela: Dersu a via como uma teia complexa de inter-retroações da qual se sentia apenas mais um fio; Arseniev a experienciava como um imponente cenário, um imenso palco no qual encenava o drama épico de suas expedições. Suas representações dos fenômenos do domínio do vivo e do não vivo e seus sistemas de significações eram muito distantes. Mesmo assim, Arseniev e Dersu respeitavam e admiravam reciprocamente suas distintas maneiras de ser e estar no mundo, faziam-nas dialogar, reconheciam seu valor e sua pertinência, amiúde sua convivência fazia-as se compenetrarem, se contaminarem, se hibridarem.

As estratégias de interação com o ambiente de Dersu em diversas ocasiões “contaminam” Arseniev, despertando-lhe uma atenção mais sutil para as mais diversas manifestações e movimentos do ambiente ao seu redor. Além da pertinência – estabelecida por Arseniev pela “comprovação” das afirmações do amigo através da experiência – das inferências realizadas pelo gold a partir de indícios sensoriais percebidos no ambiente, o que mais “deslumbrava” o explorador era a atitude cognitiva a partir da qual Dersu as construía. Elementos para os quais não atentava devido à insignificância deles para o seu sistema de organização da experiência forjado em ambientes urbanos e científico-acadêmicos como, por exemplo, as configurações dos troncos de determinadas árvores e o que estava no chão debaixo delas, passaram a entrar em seu campo de percepção sensorial, sua atenção começou a direcionar-se para aspectos do vivo e do não vivo que antes não considerava relevantes e, consequentemente, passavam-lhe despercebidos. A incrível – pelo menos para ele, nascido na cidade – afinação sensorial de Dersu instilava-lhe uma extrema confiança no amigo e estimulava-o a adotar pelo menos em parte estratégias de interação com os ecossistemas da taiga semelhantes às do caçador. Esta relação lhe propiciou muitos novos aprendizados. A convivência com Dersu também instigou Arseniev, o tempo todo, a redefinir representações que tinha construído sobre o mundo a partir de sua experiência urbana e dos sistemas de significados, de pré-conceitos dos quais tinha se impregnado em ambientes científico-acadêmicos, como a suposta dicotomia entre homem “primitivo” e homem“civilizado”.

Mas troca de estratégias de interação com o ambiente e de saberes entre o escritor e o caçador não afetou apenas Arseniev: Dersu também saiu enriquecido desta convivência, na qual aprendeu a observar a realidade de formas diferentes das que estava acostumado, como a associação entre seu aparelho perceptivo a algumas próteses tecnocientíficas (bússola, binóculo), e incorporou novos conhecimentos que lhes resultaram pertinentes para o contexto do qual sentia-se parte. Tudo isso mostra, a meu ver, quão rica foi a convivência de Arseniev com Dersu e como ela foi capaz de originar novos conhecimentos e novas formas híbridas de interagir e imputar sentido ao mundo.

Um recurso narrativo do filme de Akira Kurosawa expressa a intensidade da relação que se construiu entre os dois amigos. Uma sequência de fotografias em preto e branco que imortalizam fragmentos do cotidiano na taiga de Arseniev, Dersu e os demais homens da expedição, com um fundo musical alegre e descontraído, pára de repente quando chega a uma em que os dois, sentados juntos aos cossacos, entrecruzam sorrindo seus olhares. A câmera realiza então um zoom que foca, em primeiro plano, este olhar entre o explorador e o caçador, um olhar que transmite à flor da pele os seus sentimentos de cumplicidade, de afeto, de respeito, de confiança e de admiração mútua.

Mas Kurosawa, a meu ver, vai além da reconstrução da amizade entre o explorador e o caçador: talvez intuindo essa recíproca codefinição de Dersu e da taiga, transforma esta última em mais um ator da história narrada, evitando a tentação de reduzi-la a um simples “cenário”. No filme os primeiros planos de figuras humanas são raríssimos: quase toda a ação desenvolve-se em planos de conjunto, em que humanos e não humanos parecem ter a mesma importância dramática e há, além do mais, belíssimas e longas sequências em que a taiga é a única protagonista.

Pelo que mostrei, a amizade entre Arseniev e Dersu pode ser concebida como uma vibrante metáfora do diálogo possível entre formas diferentes de conhecer e interagir com a realidade, entre cultura científica e saberes da tradição. Tenho plena consciência de que se trata de uma minha construção de sentindo a posteriori, produto do agenciamento do meu pensamento com as narrativas que reconstroem a amizade do Capitão com o gold, e que, provavelmente, Arseniev e Dersu não percebiam desta forma a sua relação nem tinham – pelo menos conscientemente – a intenção de instaurar um diálogo/hibridação entre suas estratégias cognitivas e saberes. Porém, acredito ser pertinente considerar esta amizade nascida entre as montanhas da taiga do Uçuri como uma manifestação arquetípica, uma encarnação da complementaridade entre duas formas distintas, mas não opostas nem separadas, de conhecer, narrar e relacionar-se com o mundo.

A morte de Dersu, nesta perspectiva, também impregna-se de um forte valor simbólico. Fugindo da cidade, onde suas estratégias de interação com o real deixavam de ser consideradas pertinentes perdendo legitimidade, acaba sendo assassinado por bandidos – provavelmente de origem urbana – em uma zona de transição entre um centro urbano e a taiga. Desconhecido pelos habitantes da cidade, desapareceu do mundo tão anonimamente como nele tinha vivido, mergulhando na taiga da qual sempre fora um fio indissolúvel, enterrado numa sepultura improvisada às margens da floresta sem qualquer referência que o identificasse e que anos depois já tinha sido engolida pelo avanço da cidade. Um fim que se configura, aos meus olhos, como uma dolorosa metáfora do progressivo desaparecimento – que hoje assistimos cada vez mais – de inteiras culturas tradicionais e seus riquíssimos corpus de conhecimentos, formas de interagir com o mundo e de imputar sentido aos fenômenos, estilos de vida. Um desaparecimento tão anônimo como o de Dersu, paralelo às vertiginosas transformações de seus ambientes – com os quais suas formas de construir conhecimento e de viver são interdependentes – produzidas pelas exigências e os ritmos impostos pelo mito do “progresso”.

Mas se Dersu viveu, se hibridou com a taiga, desenvolveu sua incrível sensibilidade sensorial, forjou suas estratégias de interação com a realidade e construiu seus conhecimentos de forma totalmente anônima, longe dos olhos do mundo e evitando o mais possível o contato com a civilização urbana que – como ele sabia – o teria destruído, uma parte do imenso patrimônio de saberes e de formas de conceber e de relacionar-se com a natureza não-humana que o caçador goldencarnava foi reconstruído e oferecido à humanidade como um preciosíssimo legado pela arte de Vladimir Arseniev e de Akira Kurosawa. O livro de Arseniev teve uma fortíssima repercussão na Rússia czarista primeiro e soviética depois, transformando-se em pouco tempo em um clássico e sendo traduzido para diversos idiomas. O longa de Kurosawa venceu o Prêmio Oscar da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles (Estados Unidos) como melhor filme estrangeiro em 1976, o Prêmio David di Donatello da Academia Italiana de Cinema na categoria de melhor diretor de filme estrangeiro em 1977, teve um enorme sucesso de público em diversos países e é considerado pela crítica como uma das mais belas obras cinematográficas realizadas até hoje.

Dersu viveu e morreu anonimamente na taiga, jamais soube o que é literatura e muito menos conheceu o cinema, mas através destas artes fragmentos da sua existência e parte dos seus conhecimentos e das suas formas de interagir com a natureza não-humana emocionaram, fizeram pensar, estimularam a ressignificar conceitos, se transformaram em lições de vida, de sabedoria e de relação com o ambiente para milhões de pessoas em sua Rússia natal e no mundo. Isso também, aos meus olhos, se imbui de um intenso valor metafórico: mostra que é possível, através da arte ou de uma ciência aberta e polifônica, promover uma ecologia dos conhecimentos que incorpore, valorize, dê voz às cosmogonias, os saberes e as estratégias de interação com o mundo de indivíduos e populações cujas culturas e estilos de vida são esquecidos, ameaçados e, com freqüência, discriminados pela ciência e cultura dominantes.

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Gabriel 5 de Julho de 2016 0:28

    Ótima análise. Confesso que ainda não li o livro de Arseniev, tampouco o seu – quando estiver em melhores lençóis financeiros, pretendo fazê-lo – mas sou um grande fã do filme, é um dos meus preferidos. As questões que você levantou aqui convergem com algumas que eu mesmo tinha refletido, mas enriqueceram também meu vocabulário de compreensão da obra. Obrigado, e espero ler seu livro em breve.

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