Percurso na poesia de Mário de Andrade

Por Marcel Lúcio*

O ano de 2015 marca os 70 anos da morte do escritor paulista Mário de Andrade (1893-1945). Eventos e lançamentos editoriais evidenciaram esse fato: a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) homenageou o autor de Macunaíma e a Editora Nova Fronteira está republicando toda a sua obra. Além disso, muitas “descobertas” acadêmicas sobre vida e obra do escritor movimentaram os debates nas universidades e espaços literários, como a divulgação de áudios inéditos com a voz de Mário de Andrade recitando e explicando canções da cultura popular e a publicidade de carta com a revelação da homossexualidade do autor. E, para coroar toda a atenção em torno do escritor, a partir do próximo ano sua obra se torna domínio público.

Poeta, romancista, contista, crítico literário, musicólogo, estudioso da cultura popular, ensaísta, mentor intelectual da Semana de Arte Moderna, pioneiro na poesia modernista brasileira com a publicação da obra Paulicéia Desvairada em 1922, agitador e gestor na área da cultura, é difícil classificar e especificar o campo de atuação de Mário de Andrade, dada a diversidade e versatilidade do intelectual. Mário de Andrade pode ser considerado um “talento poliédrico”.

O romance/rapsódia Macunaíma (1928), pela genialidade do conteúdo e pela originalidade da linguagem, e a militância/atuação, teórica e prática, nos debates sobre cultura e identidade nacional em alguns momentos ofuscam a elaboração de Mário de Andrade em outros campos literários, como, por exemplo, na poesia.

Mário foi um exímio poeta! Possui seis livros de poesia publicados: Há uma gota de sangue em cada poema (1917); Paulicéia desvairada (1922); Losango cáqui (1926); Clã do jabuti (1927); Remate de males (1930); Lira paulistana, seguida de O carro da miséria (1946 – póstumo). Apesar de manter algumas constantes temáticas e formais, de modo geral, cada livro representa uma maneira diferente de trabalhar o texto poético.

Há uma gota de sangue em cada poema pode ser considerada uma obra periférica de Mário de Andrade. Pouco estudada na academia, há bibliografias do autor que inclusive a omitem. Quando referida, recebe classificação que atribui valor negativo, como “obra imatura”, “equívoco parnasiano” e “versos insignificantes”. De fato, a obra não apresentava as inovações modernistas das obras posteriores. O jovem poeta, influenciado pela Primeira Grande Guerra Mundial, exercitava o verso e dialogava ainda com a corrente estética que antecedeu a explosão modernista. Sob influência do cristianismo e de poetas franceses, como Victor Hugo, pode ser considerada uma obra pré-modernista. Foi publicada sob o pseudônimo Mário Sobral.

Referência obrigatória para os modernistas, Paulicéia desvairada, livro de poemas publicado em 1922, apresentou-se repleto de inovações na linguagem (sem métrica e sem rima, verso livre e verso branco, utilização de elipses). A cidade de São Paulo, em efervescente processo de urbanização e industrialização, foi o ponto de partida para a temática predominante no livro. Foram utilizados o poema-piada, a poesia cotidiana, de modo que o gênero poesia se aproximava à prosa. A poesia circunstancial, que principia do fato aparentemente banal, foi explorada por outros poetas modernistas como Oswald de Andrade e Carlos Drummond de Andrade. Nessa obra, Mário de Andrade revelou também a sua faceta de teórico: no “Prefácio interessantíssimo”, explicou a teoria poética do “desvairismo”, que consistia na livre associação de ideias e na escrita automática, aspectos que revelam a influência das vanguardas europeias sobre o poeta. Os versos do poema “Ode ao burgês” sintetizam o espírito da obra e do momento histórico:

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
O burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
É sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

[…]

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suíça! Morte viva ao Adriano!
“– Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
– Um colar… – Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!

[…]

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
Cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burgês!…

Na obra seguinte, Losango cáqui (1926), Mário de Andrade manteve as inovações modernistas da Paulicéia Desvairada. Um aspecto interessante a ser observado, pois permaneceu na sua produção poética posterior, é a adoção das “notações líricas” e das “meditações”. Notações líricas, composições inspiradas por sensações, ideias e momentos da vida. Meditações, poemas longos nos quais o poeta discutia seu destino ou o destino do país. Os livros Paulicéia desvairada e Losango cáqui são considerados a face modernista mais radical dentro da poética de Mário de Andrade. Cabe assinalar que, em 1925, antes da publicação de sua segunda obra com a acentuada influência da estética modernista, Mário publicou o ensaio teórico “A escrava que não é Isaura”, no qual aprofundava suas especulações, iniciadas no “Prefácio interessantíssimo”, sobre a poética em construção de modo mais científico.

Em Clã do jabuti (1927), Mário de Andrade continuou, com uma linguagem menos agressiva e de maneira mais sutil, com as inovações modernistas ao seu texto literário, porém utilizou predominantemente referências à cultura popular de diferentes regiões do país. De modo que essa obra funciona cronologicamente como uma espécie de prenúncio para a narrativa Macunaíma, publicada no ano seguinte. Assim, Clã do jabuti assinalou as facetas do Mário estudioso da cultura popular e do intelectual preocupado com a busca de uma identidade nacional. O poema “Coco do major” reflete bem a imersão do poeta no universo das manifestações populares:

O major Venâncio da Silva
Guarda as filhas com olho e ferrolho,
Que vidinha mais caningada
– seu mano –
Elas levam no engenho do velho!

[…]

Vai um mocetão paroara
Destorcido porém sem cabeça
Apostou num coco de praia
– seu mano –
Que daria uma espiada nas moças.

Pois a fala do lambaceiro
Foi parar direitinho no ouvido
Do major Venâncio da Silva
– seu mano –
Que afinal nem seu por achado.

Bate alguém na sede do engenho.
– Seu major, ando morto de sede,
Por favor me dê um copo de água…
– seu mano –
– Pois não, moço! Se apeie de água.

Dois negrões agarram o afoito,
O major assobia pra dentro.
Vêm três moças lindas chorando
– seu mano –
Com quartinhas de barro cinzento.

– Esta é minha filha mais velha
Beba, moço, que essa água é de sanga.
E os negrões obrigam o pobre
– seu mano –
A engulir a primeira moringa.

– Esta é minha filha do meio
Beba, moço, que essa água é de corgo.
E os negrões obrigam o pobre
– seu mano –
A engulir a moringa já vesgo.

– Esta é minha filha mais nova
Beba, moço, que essa água é de fonte.
E os negrões afogam o pobre
– seu mano –
Que adubou os faxeiros do monte.

O major Venâncio da Silva
Tem as filhas mais lindas do norte
Mas ninguém não viu as meninas
– seu mano –
Que ele as guarda com água de pote.

Ainda explorando a diversidade cultural do país, mas também se voltando para o seu mundo interior, Mário de Andrade publicou, em 1930, Remate de males. Nessa obra, está o famoso poema usado para descrever a personalidade múltipla de Mário de Andrade: “Eu sou trezentos”. O reconhecido poema “Louvação da tarde” expõe a capacidade do poeta desenvolver reflexões a partir da experiência imediata e das paisagens exteriores, assim como acontece no poema “Momento (abril de 1927)”:

O vento corta os seres pelo meio,
Só um desejo de nitidez ampara o mundo…
Faz sol. Fez chuva. E a ventania
Esparrama os trombones das nuvens no azul.

Ninguém chega ser um nesta cidade,
As pombas se agarram nos arranhacéus, faz chuva.
Faz frio. E faz angústia… É este vento violento
Que arrebenta dos grotões da terra humana
Exigindo céu, paz e alguma primavera.

Lira paulistana, seguida de O carro da miséria (1946), é considerada a obra madura do poeta. Publicada postumamente, não foi bem recebida pela crítica da época. A cidade de São Paulo foi retomada como tema literário nos poemas desse livro, constituindo-se uma espécie de fio condutor que permeia toda a obra poética de Mário mesmo em suas diversas fases, principiando na Paulicéia desvairada e finalizando na Lira paulistana. O famoso e complexo poema “A meditação sobre o Tietê” é considerado pelo crítico Antonio Candido como uma síntese das tendências expressas na poesia de Mário de Andrade, pois realiza a fusão entre o coletivo e o pessoal, articulando imagens advindas de sua obra poética anterior, conforme se pode observar nos versos finais do poema:

Na noite. E tudo é noite. Rio, o que eu posso fazer!…
Rio, meu rio… mas porém há-de haver com certeza
Outra vida melhor do outro lado de lá
Da serra! E hei-de guardar silêncio!
Deste amor mais perfeito do que os homens?…

Estou pequeno, inútil, bicho da terra, derrotado.
No entanto eu sou maior… Eu sinto uma grandeza infatigável!
Eu sou maior que os vermes e todos os animais.
E todos os vegetais. E os vulcões vivos e os oceanos,
Maior… Maior que a multidão do rio acorrentado,
Maior que a estrela, maior que os adjetivos,
Sou homem! vencedor das mortes, bem nascido além dos dias,
Transfigurado além das profecias!
Eu recuso a paciência, o boi morreu, eu recuso a esperança.
Eu me acho tão cansado em meu furor.
As águas apenas murmuram hostis, água vil mas turrona paulista
Que sobe e se espraia, levando as auroras represadas
Para o peito dos sofrimentos dos homens.
… e tudo é noite. Sob o arco admirável
Da Ponte das Bandeiras, morta, dissoluta, fraca,
Uma lágrima apenas, uma lágrima,
Eu sigo alga escusa nas águas do meu Tietê.

A multiplicidade da produção poética de Mário de Andrade assinala a capacidade de diálogo de sua obra com vários momentos da história brasileira entre os anos 20 e 40 do século passado: principiando com a renovação da linguagem literária mimetizando a modernização e industrialização de São Paulo e, posteriormente, discutindo a identidade e os destinos do país. Lendo os poemas de Mário de Andrade se percebe que o romancista, contista, crítico literário, musicólogo, estudioso da cultura popular, ensaísta, mentor intelectual da Semana de Arte Moderna, agitador e gestor na área da cultura também possui uma poesia de múltiplas faces.

 

* Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do IFRN – Campus Natal Cidade Alta

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