Pereiro, favela e oiticica

Tem coisa mais perfumada do que a flor do pereiro? Tem coisa mais dolorosa do que o espinho da favela? E tem coisa mais confortável do que a sombra da oiticica?  Agora, se você não sabe o que é pereiro, favela e oiticica, eu vou contar.  São plantas, nenhuma frutífera, mas todas muito conhecidas no sertão.

Um pé de pereiro pode medir mais de um metro, mesmo assim é um arbusto. Uma planta ramificada desde a base, com pequenas folhas e com galhos emaranhados, enredados, engrilhados como se diz no interior. 

O pereiro tem um fruto duro, de formato peculiar, parecendo o desenho de uma ave e que por isso todo mundo conhece como galinha-de-pereiro. Quando amadurecem e se abrem, os frutos do pereiro tomam formas de asas e soltam suas sementes, de formato também raro, parecendo pequenos pedaços de papel de seda nos tons bege ou amarelado. Eu brinquei muito com as galinhas-de-pereiro, enchendo galinheiros imaginários que eu delimitava com pequenas pedras em volta da árvore ou nos oitões de casa.  Eu e todas as crianças da vizinhança.

Mas, é a flor do pereiro, miúda e também engrenhada, o seu grande encanto. Melhor dizendo, o que mais encanta no pé de pereiro é o perfume da sua flor. E que quando o pereiro floreia é como a chuva na terra, espalha um perfume inconfundível, sem igual.

Um pé de favela pode medir bem mais de dois metros, mais alto do que um homem. É uma árvore de porte médio, com galhos espalhados e folhas em forma de estrela que parecem de plásticos, de tão brilhosas e bonitas que são. Mas, com espinhos que provocam intensa dor. Leves, as folhas facilmente desprendem dos galhos e são espalhadas pelo vento. E quando secam, folhas e espinhos se espalham muito mais.

Decerto, todo mundo que já morou no meio do mato pode dizer que pisou num espinho de favela. Quem, entre esses, não experimentou o tormento da sua dor?  E se pisou, pode dizer que não passou cuspe no pé, como eu. Que usou uma gilete ou um canivete para limpar e depois cortar o couro morto.

E tem mais, quando o espinho entrava fundo na sola do pé só outro espinho, o do cardeiro, para remediar a situação. 

Então, um dos maiores medo de quem mora no meio no meio do mato é pisar no espinho da favela.  Melhor dizendo, o que mais assusta é sentir aquela dor.

Um pé de oiticica pode medir mais de 10 metros e o que mais chama a atenção é o tamanho de sua copa. A oiticica é uma árvore de maior porte, com o tronco volumoso, galhos extensos e folhas grandes, pesadas.  A copa pode ocupar vários metros quadrados, quem sabe, o espaço de uma casa comum do interior, daquelas com uma porta e uma janelinha na frente.

Nas fazendas é comum os trabalhadores se abrigarem à sombra da oiticica na hora do rancho, na sesta do meio dia. Eu me lembro de fazendeiro que até preferia fazer as contas do algodão embaixo da árvore, porque dizia ser mais fresco que no alpendre da casa principal. Levava para debaixo da oiticica a balança, os pesos e os cadernos de anotação, depois chamava todo mundo para acertar o apurado.

Mas não pensem que é só nas fazendas que a gente encontra esses tipos de plantas. O pereiro é muito comum no sertão, então nem precisa estar no meio do mato para encontrá-lo. Até porque, pelo perfume das suas flores, ninguém arranca um pé de pereiro por nada. Já a favela, não. Mesmo sendo comum e podendo servir de alimentação animal, por causa do seu espinho ninguém quer favela por perto de casa.  E a oiticica, embora cada vez menos presente, ainda pode ser vista tanto em áreas afastadas como próximas às cidades. No meu tempo de criança ninguém arrancava um pé de oiticica. Talvez porque era muito trabalhoso, ou porque muitas pessoas, como os ciganos, se abrigavam à sua sombra.

Eu estava lembrando agora que, ainda naquele tempo, eu via muitos pés de pereiro e de favela secarem.  Já de oiticica, não. É aquela imensa árvore sempre verde. E olhe que um pé de oiticica não é igual um pé de “dedim”.

Aí você vai me perguntar:  – O que é “dedim”?  – É outra árvore, ora! Que em vez de folhas tem dedinhos. E que por isso se chama “dedim”. Também é muito presente no sertão.

Mas essa é outra lembrança e que eu não vou contar agora. Agora, não!

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