O perfume e a pedra

Cena do filme “O PERFUME – A História de Um Assassino”

Atravessei severas mágoas para descobrir que o poder absoluto é inútil. Que tudo o que é absoluto é inútil. Até o perfume concentrado de todas as coisas. Inútil. Como a arte em suas formas plenas. Inútil. Buscamos desesperada e avidamente o poder e o controle absoluto, apenas para mergulharmos no nada.

Assim poderia ter dito o personagem principal do filme O perfume, baseado no livro de Patrick Süskind (que não li). O filme, sobre poder e cobiça, conta a história de um homem capaz de cometer os piores crimes, em busca de obter aromas, essências que, combinadas, tornar-se-iam o perfume perfeito. Um homem sem odor próprio, mas com um incrível olfato, que buscava obter cheiros alheios, ainda que, para isso, tivesse de eliminar suas fontes. Matar, para ele, era apenas uma questão de necessidade. Ao fim de sua busca, o perfume perfeito lhe deu poder total sobre as outras pessoas, sobre as essências dos outros. E os outros lhe entregam as suas essências, esvaziando-se.

Um poder absoluto sobre corpos e almas. Mas, dominar de modo absoluto elimina qualquer tipo de dependência que o dominador possa ter do dominado. E o poder se alimenta dessa mútua dependência. Quando o poder cresce até o ponto de eliminar até mesmo a capacidade de o dominado oferecer ao dominador alguma essência, quando toda a essência foi sugada e só resta do dominado uma sombra que segue e obedece, o dominador se perde. Cai no tédio da inutilidade do próprio poder e a ele sucumbe.

Essa é a história de O perfume. Mas é também a história de todo poder, de toda cobiça. E é também a história da perfeição. A perfeição é inútil. Buscada eternamente para jamais ser encontrada, pois se isso acontece, o ser perfeito sucumbe. O que é perfeito tende ao perecimento, pois cessa de haver para onde ir. Depois do absoluto, há o nada.

Ou, o absoluto é o nada. Pensemos em Sísifo, mito grego revivido por Albert Camus, no livro O mito de Sísifo. Na mitologia grega, Sísifo foi um mortal que desafiou os deuses, sendo por eles condenado a rolar uma pedra até o alto de uma montanha, apenas para que, ao fim do esforço, despencasse de volta a tal pedra, exigindo de Sísifo outra vez o mesmo trabalho. Isso por toda a eternidade.

A eternidade então se torna uma condenação. Mas, não seria a eternidade, por si só, uma condenação? Algo que, existindo sem cessar, também é imutável. Não há mais o que buscar. Então, não há o sentido das coisas. Nem da vida.

A história de Sísifo é uma história de fracasso de sentido, cujo fim é sabido desde o princípio. Ou, não há fim, nem princípio. Uma história em que aquilo que é buscado, tão logo atingido se desfaz, e isso é elemento da condenação.

Já a história de Jean-Baptiste Grenouille, protagonista de O perfume, é uma história de busca pela perfeição, não importa por quais meios, cujo fim só se compreende quando a perfeição é atingida. Esse fim é o efeito da perfeição, que atrai o poder absoluto, e será o nada.

Camus vê no mito de Sísifo a tradução da absurdidade. Porém, mais absurda se apresenta a situação de Jean-Baptiste. A absurdidade de o poder absoluto, conseguido pelos meios mais cruéis, estar condenado a ser nada. Sísifo não tem escolha, a não ser cumprir a condenação, sucumbindo a vontades superiores a ele. Jean-Baptiste possui livre arbítrio e escolhe. Seu sonhado fim se revela um autoengano, que lhe destrói. Ele sucumbe a si mesmo. No movimento eterno da pedra de Sísifo, as duas histórias rompem paralelas e se encontram. O perfume de Jean-Baptiste é uma perfeita porção alquímica e a alquimia representa a eternidade como algo que se devora a si mesma.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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