Perigos da viagem na prosa de César Aira

Toda prosa de ficção finda por esbarrar nos limites da liberdade que um escritor se permite. No caso do argentino César Aira, esses limites parecem nunca estar definitivamente estabelecidos. Ao menos no que concerne às duas novelas que integram o livro “Como me tornei freira” (Rocco, 2013). O livro integra a coleção “Outra Língua”, dirigida pelo escritor Joca Reiners Terron, que já publicou outro romance extraordinário, “Deixa comigo”, do uruguaio Mario Levrero, e anuncia para breve o lançamento de outro argentino, Fabian Casas, entre outros hispano-americanos.

No primeiro caso, um protagonista (às vezes, a protagonista) chega ao extremo de narrar a própria morte, estabelecendo um recorde difícil de superar em termos de ousadia e liberdade literária.

A segunda narrativa, “A costureira e o vento” se dá até mais liberdades, embora gire em torno de um tema aparentemente conservador, se nos ativermos apenas ao título. Mas é exatamente o contrário do que sugere. De fato, se um personagem pode ser assumido com naturalidade por uma costureira, falar do personagem vento foge a qualquer parâmetro convencional. E há de se reconhecer que a entrada do vento “Ventarrón” (que outro nome poderia ter um vento fanfarrão, valentão, bufão?) é simplesmente teatral. E mais, com consequências imprevisíveis e decisivas para a trama.

Mas não se negligencie a primeira narrativa, pautada, a cada capítulo, por alterações tão radicais que parecem desfigurar seu curso. Mas isso só passaria à cabeça de um leitor apressado, pois Aira, se nem sempre dá o que seu leitor pode supor desejável, lhe dá, em troca, as surpresas em série de uma trama que vale como um arremedo de rodopio. A história contada pela garotinha de seis anos de idade é simplesmente arrebatadora. Fica claro para o leitor logo nos primeiros capítulos que algo está para acontecer além dos incidentes banais que a minúscula protagonista parece atrair a cada passo. A começar pela sua recusa intransigente a tomar sorvete de morango.

O desenrolar da história, porém, findará por dar razão à protagonista. Pelo menos nesse item. Porque as coisas que se sucedem nos capítulos seguintes deixam sempre alguma ponta de inquietação no leitor, já que comportam sinais preocupantes e crescentes.

Entre as duas novelas é recomendável, portanto, ficar com ambas, a fim de não desperdiçar as sutilezas oferecidas pela prosa de César Aira, um argentino contemporâneo que se dá ao luxo de escrever num café de Paris sobre a duplamente longínqua Patagônia, que o autor, realista, agora, descreve nestes termos: “os confins do mundo… Sim, de acordo”, e emenda um enigmático comentário: “mas os confins do mundo continuam sendo o mundo”. E é para esse cenário impensável que ele arrasta uma troupe numerosa de atores, dentre os quais se encontram a onipresente costureira, o vento Ventarrón, o marido da costureira, seu vizinho, um monstro inconcebível, uma noiva em estado de pânico, todos se abeirando de um desfecho duplo: uma tragédia anunciada e, no outro extremo, o destino de uma personagem a ser decidido “profissionalmente” numa mão de baralho.

Uma das chaves dessa novela é uma citação feita por Aira logo no seu início: “Uma pessoa viaja, vai até o outro lado do mundo [a Patagônia, por exemplo] mas deixa sua vida guardada em casa, pronta para ser recuperada na volta. Porém, quando está longe, essa pessoa se pergunta se por acaso não terá trazido sua vida junto, sem querer, e em casa não resta nada. A dúvida basta para criar um medo atroz, insuportável, sobretudo porque é um medo do nada, uma melancolia”. “A costureira e o vento” não deixa de ser um teste dessa hipótese do despatriamento melancólico.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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