Pérolas da autoria de João Gilberto

“Ao deparar com o belo Bim Bom – The Complete João Gilberto Songbook, da cantora Ithamara Koorax com o violonista e guitarrista Juarez Moreira, é inevitável se perguntar por que ninguém pensou nisso antes: reunir num só álbum todas as (poucas e boas) 11 composições do papa da bossa nova. Produzido por Arnaldo DeSouteiro, o CD foi gravado em 2008 no Rio, concluído e lançado em outubro de 2009 no exterior. Como não há previsão de sair no Brasil, vale a pena comprar o importado, que está à venda no site www.amazon.com, a partir de US$ 10,60.

Brasileira com prestigiada carreira internacional, mais do que no país de origem, Ithamara diz que “depois de ter trabalhado com gênios como Tom Jobim, Luiz Bonfá, Hermeto Pascoal e João Donato” só faltava se dedicar à obra autoral de João Gilberto. “Não fazendo uma imitação, como tantos e tantas já fizeram, do jeito dele cantar. Mas trazendo à tona a sua criação como compositor, que acabou relegada a segundo plano. Injustamente. Porque, ouvindo uma música como Bim Bom, gravada por ele em 1958, como lado B do 78 rotações que tinha Chega de Saudade, você saca que a estética da bossa nova já estava inteirinha ali.”

Para ela, “se a cabeça do João não funcionasse na base do Bim Bom, não teria existido a concepção que ele aplicou às músicas do Tom. Ou seja, não teria existido a bossa nova. Pelo menos não do jeito que a concepção estética do João Gilberto a moldou”, explica. “Existe alguma outra lenda viva na música brasileira?”, indaga a cantora, na longa entrevista concedida por e-mail ao Estado. Ithamara está em cartaz no Rio, apresentando esse repertório no Bar do Tom (Rua Adalberto Ferreira, 32, Leblon, tel. 21 2274-4022). Os dois últimos shows são sexta e sábado.

Ela diz que tinha vontade de realizar este projeto há muitos anos, mas “foi sendo atropelado por outros”. “Canto Hô-Ba-Lá-Lá desde o meu primeiro show como cantora profissional, em 1990, no Rio Jazz Club. Na época, o arranjo era do Paulo Malaguti, meu pianista no início de carreira. Durante esse tempo todo, é claro que o arranjo foi se transmutando, já devo ter cantado esta música de umas 20 maneiras diferentes. E gravei de um jeito diferente do modo como canto atualmente nos shows. Isto é exercer a criatividade, isto é jazz!”, diz a cantora.

Juarez já tinha assistindo a um show de Ithamara em 2005 e foi ter com ela depois para elogiá-la. A cantora, por sua vez, já conhecia os discos dele e “sabia que era o violonista mais indicado para gravar este songbook”. “Não apenas pela altíssima qualidade dele como músico – o único, no Brasil, que segue a linha de Bonfá e Laurindo, e está no mesmo nível deles -, mas principalmente porque eu soube, através do meu produtor Arnaldo DeSouteiro, que ele era apaixonado pelo João, tocava de cor todas as obras deles. Era fundamental ter, como parceiro, alguém com esse grau de “commitment”, de “comprometimento emocional” com o projeto.”

Os dois gravaram tudo em dois dias no EG Studios, no Rio, “ao vivo”, como se estivessem fazendo um show. “Não houve overdub de voz nem remendo de violão. Os únicos overdubs aconteceram nas músicas em que decidimos usar dois violões ou somar um violão e uma guitarra”, afirma a cantora. “Resultou num trabalho muito espontâneo, que vem sendo unanimemente aclamado, com ótimas resenhas no New York Times, na Billboard, na Jazz Times de janeiro, 5 estrelas na Cashbox, enfim, o Bim Bom tá bombando!”, festeja.

No encarte do CD, há comentários sobre cada faixa, não só com referências históricas sobre cada tema, mas com um ou outro dado sobre as novas gravações. Clássico pioneiro da bossa nova, Bim Bom é o ponto de partida do CD, mas a primeira composição gravada de João foi Você Esteve com Meu Bem?, por Marisa Gata Mansa em 1953. Outra das mais conhecidas é Hô-Bá-Lá-Lá, que aqui aparece em duas versões, uma delas com letra em inglês, de Aloysio de Oliveira. Minha Saudade (uma das três parcerias com Donato), ela já havia gravado duas vezes, nos CDs Wave 2001 (1996) e Bossa Nova Meets Drum & Bass (1998).

Alternando canções e temas instrumentais, como Um Abraço no Bonfá (solo de Juarez), Ithamara faz vocalises em outras que não têm letra, como Undiú, Valsa (Bebel) e a rara Glass Beads (No Coreto), gravada antes uma única vez por Donato em 1965. A cantora diz que os caminhos harmônicos vieram naturalmente trazidos ou sugeridos por Juarez, “que é um craque”. “Em algumas músicas ele se aproximou bastante das gravações do João, no caso das músicas que ele (João) chegou a gravar. Em outras, como as três parcerias com o Donato, o Juarez reprocessou tudo à maneira dele, fez um trabalho genial. A performance dele em Minha Saudade é uma aula de violão!”

A única interpretação que ela diz ter premeditado foi a de Forgotten Places (Coisas Distantes). “Fiquei imaginando como Shirley Horn a cantaria. Por isso, gravamos num andamento bem lento, que me permite saborear cada sílaba”, diz a cantora, que está gravando dois novos álbuns simultaneamente, um em Los Angeles, outro em Nova York. “Mas ambos são projetos secretos, como foi o Bim Bom.” (ESTADÃO)

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