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A pior das pestes

Em viagem pela Europa, na segunda quinzena de novembro de 2019, estive em Milão, Florença e Siena, na Itália. Quem iria prever que, dois ou três meses depois, essa região seria palco de tremenda crise de saúde, causada por uma doença viral de altíssima mortandade? Vimos o quanto essa infecção, a Covid-19, espalhou-se rápido pelo mundo e tornou-se uma terrível pandemia.

Nos passeios por Florença e por Siena, não atinei para o futuro, claro, mas, sabedor do passado cruel no tocante às grandes epidemias de séculos atrás, que dizimaram os sofridos seres humanos da época, habitantes daqueles belos lugares medievais, não pude evitar que essas lembranças viessem-me à mente.

Agora, recorro a Santo Agostinho que, no seu livro Confissões, assim explica o tempo: “Seria talvez mais justo dizer que os tempos são três, isto é, o presente dos fatos passados, o presente dos fatos presentes, o presente dos fatos futuros. O presente do passado é a memória. O presente do presente é a visão. O presente do futuro é a espera”.

No caso, ocorreu-me o presente do passado, não de fatos vividos, mas sabidos pelas leituras da história da medicina. Na Idade Média, que se estende dos séculos V ao XV, a população da Europa vivia, em sua maioria, nas áreas rurais, a produzir seus próprios alimentos. Apesar de ser uma população pequena, a fome e a desnutrição eram prevalentes. O feudalismo, com suas regras injustas, era modelo aceito, como se fosse um desígnio de Deus.

Peste negra

No meio dessa vida repleta de agruras, de condições difíceis e desiguais, as doenças tinham ambiente a favor para evoluírem livres: medicina mágica e mítica, desnutrição, sujeira e lixo, ratos e pulgas por toda parte, higiene pessoal rara –dizia-se que tomar banho fazia mal –, enfim, tudo a concorrer para que a saúde dos seres humanos se tornasse frágil e sujeita a pragas e a doenças contagiosas graves.

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Médicos da época usavam máscaras com bicos aromáticos que lembravam aves, para se protegerem do ar contaminado.

As pestes por vírus e por bactérias ceifaram milhões de vidas em todo o mundo. A mais letal de todas foi a Peste Negra, que assolou a Europa de 1348 a 1353, deixando um rastro de vítimas que alcançou 50% da população.

Somente muitos séculos depois, a ciência descobriu o agente causador, a bactéria Yersinia pestis e a cadeia rato–pulga–homem.

Em Florença, cidade linda e próspera, a Peste Negra vitimou 80 mil pessoas, e somente 20 mil sobreviveram.

Dois escritores e poetas de Florença ficaram conhecidos pelos relatos da Peste, Boccaccio e Petrarca. O primeiro deixou a obra “Decamerão”, um clássico sobre a doença. Petrarca também deixou escritos sobre a Peste Negra, a exemplo da frase: “Feliz a posteridade que não conhecerá dor tão grande e que considerará nosso testemunho como fábula!”

A Peste Negra venceu as muralhas de Siena, ao mesmo tempo que fez em Florença, e com o mesmo poder letal. Faltavam até coveiros para sepultar os mortos. Vejam o trágico depoimento de um pai: “E eu, Agnolo di Turo, dito o gordo, enterrei os meus cinco filhos com minhas próprias mãos”.

Primeiro reitor eleito da UFRN. Graduado em Medicina pela UFRN (1965). Ao se aposentar, abdicou da Medicina e optou pela Educação, tendo se dedicado à instalação da FARN, atual UNI-RN, no ano de 1999. É membro da Academia de Medicina do RN e do Instituto Histórico e Geográfico do RN. Autor dos livros Noilde Ramalho – uma história de amor à educação e Retratos da Vida, além de outras publicações. E em abril/2017 foi eleito para a cadeira nº 3, da Academia Norte-rio-grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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