Philip Marlowe, o detetive rude

Por Braulio Tavares
BLOG DA COMPANHIA

Raymond Chandler era executivo da indústria do petróleo na Califórnia. Com mais de quarenta anos, alcoólatra e desempregado, inventou a si mesmo como escritor, e acabou reinventando o romance policial ao trazer para ele uma mistura pouco comum de habilidades e conhecimentos. O sono eterno (1939) não surgiu do nada: surgiu das revistas de pulp fiction, como a Black Mask, em que Chandler foi colaborador, surgiu da obra de Dashiell Hammett, James M. Cain e outros que já cultivavam o policial hardboiled antes dele. Mas Chandler desembarcou no gênero com uma bagagem própria. Ter estudado num colégio tradicional britânico foi um dos diferenciais de sua prosa, o que o coloca no pequeno nicho dos autores que souberam misturar, cada qual ao seu modo, uma formação norte-americana e uma formação britânica: Edgar Allan Poe, Henry James, T. S. Eliot, John Dickson Carr e outros.

O sono eterno é a primeira aventura de Philip Marlowe, o detetive que narra a história como se ele e o leitor estivessem sentados numa mesa de bar e ele tivesse anunciado como abertura: “Se prepare. É uma longa história”. Uma história contada com a precisão de uma câmera de cinema. Marlowe conta ao leitor tudo o que vê e tudo o que faz, mas mantém para si mesmo suas suspeitas e deduções, e só as revela no final. Chandler dizia que seu objetivo era produzir emoção no leitor através do diálogo e da descrição de ações – e o consegue. Mas as reflexões amargas de Marlowe sobre sua cidade e seu tempo, quando brotam do texto, dão a medida do distanciamento de que Chandler era capaz, diferentemente dos autores da pulp fiction, presos à mera aventura.

A Califórnia de 1940 descrita por ele é cheia de milionários cínicos, sobre a origem da própria fortuna, exercendo um poder sombrio e sem propósito; políticos com rabo preso; policiais honestos tentando fazer vista grossa a um esquema corrupto até a veia; mulheres belas, vividas, escoladas, contando apenas com a beleza e a frieza para se manter à tona de um oceano de mulheres fabricadas em série; médicos charlatães distribuindo drogas e receitas a quem pudesse pagar. Chandler manteve durante a vida inteira a altivez arrogante dos íntegros num meio de gente canalha. Desprezava a civilização do dinheiro que mandava na Califórnia, e desprezava Hollywood, seu símbolo maior. Quando conseguiu notoriedade e poder como roteirista, por mais de uma vez fez a indústria ceder aos seus caprichos, suas exigências, seus pitis. Quando se equiparou em soberba aos soberbos, ganhou seu respeito e os fez abrir a carteira.

O sono eterno acontece em Hollywood, mas o cinema é mero pano de fundo para uma história de corrupção familiar que beira o patológico, e tem sido vorazmente imitada nos últimos cinquenta anos. Philip Marlowe vê essas pessoas com desprezo, mas um desprezo que em certos casos é atenuado por uma simpatia específica, como a que ele sente pelo general Sternwood, que o contrata no início da história. Marlowe cobra 25 dólares por dia, mais as despesas, mas volta e meia seu envolvimento no caso vai além do dinheiro. As histórias de Chandler são histórias fortemente masculinas, falam de amizades e lealdades masculinas; as mulheres aparecem como vilãs, mesmo quando têm um lado simpático. Marlowe foi comparado aos cavaleiros andantes medievais, mas tem na verdade um temperamento de soldado, aquele soldado à moda antiga, ético, inflexível, severo, cheio de desprezo pelos homens fracos que se escondem por trás do próprio poder.

Chandler era um desses escritores que escrevem sofrendo, refazendo dez vezes um parágrafo. Isso deixa sua prosa às vezes mecânica, parecendo uma colagem de pedaços já prontos. Seus Notebooks (Ecco Press, New York, 1976) estão cheios de listas de frases de espírito, descrições, termos de gíria, símiles, títulos, trechos alheios que ele guardava como modelos a observar. Mas era um dos autores que escrevem com a alma inteira, e, como disse uma vez Billy Wilder, “um raio coruscava em cada página”.

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Braulio Tavares é escritor e jornalista. Publicou cerca de 15 livros, a maioria pelas Editora 34 e Casa da Palavra, além de livros independentes, em vários gêneros, tais como ensaio, poesia, conto, romance, etc. É o tradutor, organizador e prefaciador das novas edições da obra de Raymond Chandler pela Alfaguara e autor do blog sobre o escritor americano.

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