Pierrot

Eu tinha por volta dos 10 anos, quando uma situação marcou minha vida. Creio que ela vai me ajudar a contar um pouco do que eu sou hoje. Era carnaval e eu estava em casa me arrumando para a festinha da escola.

Naquele ano, minha mãe escolheu a fantasia de Pierrot, e ela deu o nome viu?! A fantasia era completa, visualizem comigo, por favor…roupa com babados coloridos nas mangas e na gola da blusa, touca de tela amarela na cabeça com um pompom no topo, calça de paetê preto e brilho por todo lado.

A maquiagem era clássica: metade do rosto branco, com uma lágrima preta descendo, e a outra metade preta, com uma lágrima branca.

Pronto, minha primeira montação estava prestes a ser vista por todos. Tenho um detalhe importante pra essa história.

Eu morava vizinho ao colégio, o que me tornava privilegiado de ter a liberdade de ir em casa sempre que preciso e ser liberado na porta sem meus pais.

Voltando ao Carnaval…Chegando na escola, comecei a subir a rampa que ficava logo na frente. Ao caminhar escutei várias crianças rindo, apontando e gritando coisas pra mim. Demorei um pouco pra entender aquela situação, mas sabia que o que eu estava sentindo não era bom.

Meu coração estava apertado e meu olhar começava a embaçar por um choro de agonia. Estavam rindo de mim, me achando estranho, diferente.

Saí correndo de volta pra casa, chorando como um pierrot.


Passei anos sem entender o poder da minha existência, anos sem saber o motivo da minha arte incomodar; Hoje, sinto que aquele Dumaresq que enfrentou afronta como nunca. Que nossas batalhas são diárias, e que precisamos ser fortes.

Melhor fantasia de Carnaval

Ao voltar, minha mãe me olha sem entender e pergunta o que aconteceu. Eu falo que as crianças riram de mim, e que eu não iria mais voltar pra lá. Lembro da cena. Ela se abaixou e, de uma forma firme e decidida, me disse:

“Volte agora pra lá, que eu não passei horas te maquiando pra você voltar pra casa. Vá e se divirta!”

Na hora achei meio egoísta ela não entender que eu estava triste, mas depois obedeci. Voltei, com maquiagem borrada, mas muita coragem. A festa foi linda, no final ganhei até o prêmio de melhor fantasia do carnaval.

Passei anos sem entender o poder da minha existência, anos sem saber o motivo da minha arte incomodar. Hoje, sinto que aquele Dumaresq que enfrentou afronta como nunca. Que nossas batalhas são diárias, e que precisamos ser fortes.

Vivemos rodeados por um sistema que nos olha de forma pejorativa, caricata, sem ao menos procurar entender nossas vivências e origens.

Mas somos luz, nossa arte rotineira nos ajuda a viver, somos inspiração e isso é PODER!!!

Meu nome é Raphael Dumaresq, produtor cultural, performer, artista, viado, afeminado e agora membro desse coletivo. Aqui vamos falar sobre diversas fatias do mundo LGBTQ+.

Esse espaço é nosso!!!

Produtor cultural e performer. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Dani 3 de Abril de 2019 23:51

    Por muito tempo, nós LGBTs passamos por experiências de solidão e às vezes a gente acha que está só no mundo. Se identificar com a sua história faz repensar a nossa própria. Gratidão por compartilhar suas experiências com a gente e lembrar do poder que existe em cada um de nós; para não esquecer que de toda dor sempre pode nascer um aprendizado. Texto lindo e sensível. Parabéns pela coluna, Rapha! Que seja um caminho de sucesso e de muita partilha! <3

  2. Andrey L 4 de Abril de 2019 12:38

    Você é inspiração. Você é arte! Obrigado por compartilhar.

  3. Willian A 4 de Abril de 2019 15:50

    O pior é que as vezes a nossa própria bolha/comunidade reproduz essa não aceitação com nossos corpos e seres, mas vamos continuar nos amando e vivendo a nossa verdade! Orgulhoso de ter figuras como você que levantam a bandeira aqui na cidade e não deitam!

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