Piloto de guerra escreve “O pequeno príncipe”

Por Mônica Cristina Corrêa
BLOG DA COMPANHIA

Aparentemente contraditório, mas verdadeiro.

Em 1940, partindo num navio de Lisboa, o piloto e autor francês Antoine de Saint-Exupéry, então com quarenta anos, deixa a Europa em direção aos Estados Unidos, aonde chega na virada do ano. Deveria passar ali pouco tempo — alguns meses — a fim de receber o prêmio por seu livro Terra dos homens, de 1939. Sua bagagem àquelas alturas já era a de um piloto experiente, pois havia trabalhado anos na lendária companhia de correio Aéropostale. E a de um escritor fecundo, pois havia escrito livros reconhecidos dentro e fora da França.

Mas o momento era, tanto para ele como para muitos, transformador: vivia-se a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e o piloto-escritor vinha da Europa profundamente afetado pelos acontecimentos, sobretudo a invasão alemã em seu país. Havia engajado em sua defesa a própria pele — como membro do grupo de reconhecimento aéreo 2/33 sobre cidades devastadas —, cumprido missões de altíssima periculosidade. Com a assinatura do Armistício em junho, Saint-Exupéry fora desmobilizado e, ao partir para os EUA, tinha mais que a motivação de um prêmio literário; queria ajudar a convencer os americanos a entrar na Guerra em defesa dos Aliados.

Os poucos meses “americanos” de Saint-Exupéry se transformariam em mais de dois anos; dali o piloto saiu, em 1943, para novamente engajar-se na guerra (“Quem sou se não participo?”, escrevera). E, como para fazer valer sua profunda crença na ação (“Creio nos atos e não nas grandes palavras”), não poupou esforços para voltar à luta, o que não era previsto, pois já tinha 43 anos (a idade máxima para aqueles voos era de 35) e diversas sequelas de acidentes aéreos que lhe impediam a plena forma física.

Em 31 de julho de 1944, Saint-Exupéry partiu da base de Borgo, na Sardenha, para uma missão a fim de fotografar a região de Grenoble-Annecy. Pilotando um Lightening P-38, ele deveria retornar em quatro horas. Seus superiores haviam decidido revelar-lhe o iminente desembarque dos aliados na Provença, a fim de que, portador desse segredo de guerra, deixasse de voar. Temiam por sua vida, conforme disse o camarada que era oficial encarregado de operações, Jean Leleu: “Na realidade, nós todos sentíamos que sua perda como homem seria infinitamente mais grave do que sua perda como aviador e temíamos por seu destino”. Naquele fatídico dia, com efeito, Saint-Exupéry jamais retornou. Desapareceu misteriosamente com seu avião, e as circunstâncias de sua morte só puderam ser esclarecidas a partir de 1998.

A visão de seus colegas não era enganosa: mais que do aviador, todos se lembrariam do homem que foi Saint-Exupéry, sobretudo por conta de sua última obra, publicada em abril de 1943, nos Estados Unidos, hoje a mais traduzida no mundo: O pequeno príncipe. O que poucos sabem é que esse texto tão conhecido está indelevelmente ligado ao seu livro anterior, Piloto de guerra, de 1942, no qual o escritor narra sua experiência durante arriscada missão do dia 10 de maio de 1940 sobre a cidade francesa de Arras, que estava em chamas. Contundente, o texto foi publicado nos Estados Unidos sob o título Flight to Arras; ao sair na França, foi proibido pela censura alemã. Várias foram as edições clandestinas.

Piloto de guerra é obra de um piloto militar — diferente do idílico piloto do deserto e da Aéropostale —, é obra de um homem abalado pela situação de seu país, mas que reflete sobre sua derrota e o avanço do Nazismo; um homem engajado, que entende a necessidade de fazer cessar o esmagamento das civilizações sob o jugo dos regimes totalitários. Decerto, não se subtrai à tristeza, mas é uma exortação à participação dos americanos, cheia da convicção de que é preciso buscar o fim do conflito em vez de se defenderem ideologias ou posições políticas. É esse autor, amargurado, ansioso e muitas vezes incompreendido que escreverá O pequeno príncipe.

O desconhecimento de Piloto de guerra e a superabundante divulgação de O pequeno príncipe fizeram desvanecer a ligação entre os dois textos. Mas, assim como o principezinho é melancólico e procura amigos, o piloto, em seu exílio, tem de incitar uma nação à guerra e é incompreendido por seus compatriotas. Vê seu país sendo esmagado pelos alemães — “Nas mãos do inimigo, há só um ninho de ratos. Tudo muda de sentido” —, e se sente como o piloto-narrador de O pequeno príncipe, que, no deserto, desenha um planeta sufocado por baobás gigantes…

O pequeno príncipe está à deriva em busca de um sentido para a vida e saberá que o “essencial é invisível para os olhos”. Porém aprenderá que não é possível atingi-lo sem fazer sacrifícios, sobretudo o de abandonar a “casca”, o corpo, em prol do espírito. Por isso o personagem se despede, retorna à sua estrela, do modo como dizia o piloto em guerra: “O corpo, velho cavalo, nós o abandonamos”.

Tais são valores destacados por Saint-Exupéry e aos quais se apega em meio à destruição e ao horror. Ele, que havia estado tantas vezes diante da morte, deduzia em Piloto de guerra: “Estou chocado com uma evidência que ninguém confessa: a vida do Espírito é intermitente”. Mas ele é também um homem em conflito, que tenta mudar o estado de coisas. Primeiramente, era-lhe preciso convencer seus compatriotas da necessidade de união dos franceses, já que estes estavam dilacerados entre colaboracionistas e gaullistas ou vichystas. Depois, havia a necessidade ainda maior de aceitar o sacrifício, arriscando a vida pela pátria.

Dessa forma, o desenho do carneiro que o pequeno príncipe solicita ao piloto do deserto pode ser visto como esboço do animal (bíblico, por sinal) simbólico para imolação. O valor desse sacrifício não remete à morte pura e simples. “Sacrifício não significa nem amputação nem penitência. É essencialmente um ato. É um dom de si mesmo ao Ser a que se almeja pertencer”, escreveu Saint-Exupéry em Piloto de guerra.

Nessa concepção, todos são responsáveis por todos e por cada um. Uma responsabilidade solidária que justifica esse “ato”, esse “dom de si” através do engajamento apesar do alto risco da idade e das condições de Saint-Exupéry. É aceitar ser imolado por uma causa maior. O que se tornou uma espécie de fórmula de O pequeno príncipe — “você se torna para sempre responsável pelo que cativou” —, parece reflexo dessa responsabilidade pelo próximo que o piloto de guerra assume.

Saint-Exupéry ancora sua ação na fé num mundo melhor, o da memória, intocável, de sua infância. Assim, suas reminiscências são a visita a esse “território” de pureza e felicidade. Em Piloto de guerra, são as lembranças dos tempos de menino que abrem a narrativa. É o “território” ao qual ele reivindica sua pertença, o território de origem do pequeno príncipe, contrastante com o ambiente bélico em que o homem crescido se encontra.

Por fim, a leitura de Piloto de guerra pode completar a de O pequeno príncipe, e vice-versa, na medida em que o autor de um é o de outro, possivelmente em sentidos opostos; no primeiro, a infância se filtra através das bombas e da destruição; no segundo, a criança, malgrado sua capacidade de enxergar com o coração, entrevê, a todo tempo, a ameaça de destruição pelo materialismo puro.

Somente em 1998, um bracelete com o nome “Antoine de Saint-Exupéry” gravado é encontrado na rede de um pescador de Marselha e dá as pistas de onde teria caído o avião do piloto-escritor. As buscas começaram e, em 2002, o arqueólogo marinho Luc Vanrell tira do mar os destroços do P-38. Um piloto alemão, Horst Rippert, com 95 anos à época, identificou-se como autor dos disparos que abateram o avião de Saint-Exupéry. Tendo imaginado que o piloto de cujos escritos ele era fã tivesse morrido na região dos Alpes, Rippert se calara por muitos anos, até dar-se conta do que se tornou evidente para ele com o achado do avião: ele havia disparado contra o avião de Saint-Exupéry naquele 31 de julho. Desde então, a fama do escritor nunca cessou de crescer, assim como o mito acrescentou-se, pelo mistério de seu desaparecimento, à sua figura artística. Resta, pois, que se leia mais sobre o piloto de guerra que ele foi. Mais que um personagem, esse piloto foi herói da França e da Segunda Guerra Mundial em sua luta pela paz e pelo fim do Nazismo.

A proposta de leitura de Piloto de guerra e de O pequeno príncipe sob uma ótica comum pode ampliar a compreensão do pensamento de um dos autores mais celebrados do século XX. “Quando o corpo se desfaz, o essencial se mostra”, escreveu Saint-Exupéry em Piloto de guerra. Mesmo invisível, pode-se dizer que o essencial desse grande escritor para quem a literatura era profundamente ligada à sua ação, está em sua própria obra.

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Mônica Cristina Corrêa é tradutora de O pequeno príncipe, que será lançado em agosto pela Companhia das Letrinhas, e de Piloto de guerra, que sairá pela Companhia das Letras também em agosto.

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