Pílulas para o Silêncio (PARTE CII)

O verdadeiro contacto entre os seres apenas se estabelece através da presença muda, da aparente não-comunicação, da troca misteriosa e sem palavras que se assemelha à oração interior. (E. M. Cioran, em Do inconveniente de ter nascido)

Aproximou-se, olhou em redor e tentou explicar-lhe tudo; em e com detalhes. Ela irritou-se com o seu discurso gordo; cheirando a invencionices.

***

No outro dia, cedo, bateu à porta. Sem meias palavras, ele alteou a voz e, rubro de interjeições, apelou para quem lhe estava próximo. Ela deu-lhe as costas, nem lhe dando tempo para mais nada. Tudo recendia a combinações e a “teatralices”.

***

Sumiu por uns dias.
Quando voltou, ele nada lhe disse; sentou-se ao canto, mascou o fumo do segredo, a moer e remoer o osso duro do verbo magro e não-nato. E… deitou-se. Com pouco, orou e, placidamente, dormiu.
No palco do silêncio da madrugada, ela, então, lhe entendeu. Quase tudo.

Clauder Arcanjo
clauderarcanjo@gmail.com

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Basilina Pereira 3 de Agosto de 2016 11:59

    Parabéns, Clauder, gostei muito das suas interjeições e dos silêncios camuflados. Um grande abraço poético desta admiradora.

  2. Miriam 3 de Agosto de 2016 18:12

    Ora pílulas! Esse silêncio de tanto significado, em tão poucas palavras.
    Ah “infiliz das costa oca!” Você sempre a descobrir um jeito de deixar
    a gente sem palavra…

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