Pílulas para o Silêncio (Parte LV)

Não versejes…

 Não versejes sobre a tragédia alheia, se ela não arrancar, do fundo dos teus olhos áridos, sequer uma lágrima de sangue.

Não versejes sobre a comédia alheia, se ela não conspurcar o fundo dos teus pensamentos sequer com a mancha de uma ânsia de piedade.

 ***

 Toda ocasião em que lhe solicitavam um verso livre, recolhia-se para vazar um soneto alexandrino de escol. Toda vez em que o aplaudiam quanto ao domínio da métrica, fechava-se em casa para publicar, na manhã seguinte, o mais ousado dos versos pós-modernos. Admoestado por um amigo quanto à impropriedade dos seus atos, respondeu, plácida e candidamente: “O aplauso da turba ignara é a pior ferrugem para a férrea inspiração de um pretenso poeta!”.

 ***

 Certo dia, ele acordou tão senhor da “nobre arte da sua escrita”, que decidiu parar de escrever, dedicando horas e mais horas apenas a catar escorregos gramaticais nas páginas dos cânones literários. “São todos ídolos de pé de barro!”

 ***

 Domesticai um animal, e ele vos servirá com estimação. Domesticai um poeta, e ele vos servirá muito mais de que um animal de estimação.

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Adélia Maria 16 de Novembro de 2013 18:02

    Clauder Arcanjo
    Que prazer enorme ler tudo o que você escreve.
    Além do prazer, é um aprendizado, tal a riqueza de estilo, de imagens.
    Pura poesia, ainda que seja prosa.
    Parabéns. Adélia

  2. Sueleide Suasusna 9 de Dezembro de 2013 6:00

    Verseje, verseje, meu amigo!
    Quebre as correntes
    Verseje livremente
    Nos renda cativo
    Do poema-voador
    com ou sem rima
    Feito obra-prima
    Que encanta o leitor

    Abraço da leitora quase assídua,
    Sueleide

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