Pílulas para o Silêncio (Parte LVIII)

Espelho

Paciente, limei a tua pele de uma maneira tão ebúrnea que, cristal de vidro, refleti os meus olhos azul-melancolia na lúcida prata do teu corpo. Vaguei por entre o que imaginava que seria a minha imagem, beijei-a com lábios candentes, batom carmim, sem reparar no tempo nem no intento de tão completa entrega. De repente, estilhaços de uma aurora romperam a placidez da manhã guardada em silêncio conventual. Fremente, em meio a tanta perda, de olhar pasmo e cinza-degredo, divisei uma nesga de tua alma borboleta fugir por entre a fratura da vidraça, império da brisa outonal.
Hoje, espelho do espelho de ti, arvoro-me imagético para sondar a tua placidez de quartzo, ao tempo em que… tudo que me cerca colore-se de impura, banal e sumida turbidez.

***

Nada e tudo, tudo e nada. Apresento-te o balanço das minhas contas, em total e infausto desequilíbrio, para colher a contraprova das minhas faltas. Tudo e nada, nada e tudo. Como sem falta.

***

Amanhecia, e eu nem me dava conta do festejo fálico do sol. Anoitecia, e eu nem ligava para os gracejos ardentes do coito da ninfeta lua.

***

Oxalá eu apareça amanhã com as minhas dúvidas; hoje, com o meu bornal de certezas, nem pareço que existo.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Francisco Miguel Moura 15 de dezembro de 2013 22:05

    Amigo Clauber,
    Boas reflexões para esta época do Natal, quando não sabemos bem o que dizer, o que escrever. Estou querendo fazer um crônica (já fiz tantas) de Natal e não sei ccomo começar. Talvez suas palavras me ajudem.
    Abraços
    francisco miguel de moura

  2. Adélia Maria 15 de dezembro de 2013 17:46

    Clauder:
    Como sempre, um grande prazer a leitura dos seus textos. Quanta poesia!!!
    Abraços. Adélia

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