Pílulas para o Silêncio (Parte LXIV)

Uma prolongada dor só pode fazer de alguém um imbecil ou um santo.
(Cioran, em O livro das ilusões)

A primeira dor atordoou-me. Passaram-se dias, semanas, meses. Não largava de mim, deixando-me sem rumo e sem prumo. Vi-me, então, perdido; de olhos abertos e com olhar vago. Sem mais nada perceber, nem captar. Como se imerso num vácuo de tudo. Abestalhado, enfim.
A segunda, numa sucessão de ondas de agonia, turbilhão de espasmos fortes e cruéis, a durar meses, anos… jogou-me para o inefável, para o indescritível, cingindo-me ao meio, rasgando minhas certezas, apertando e atazanando meus bofes, cerzindo toda a minha pele com a costura do indizível. Flagrei-me, por conseguinte, sublimado; de olhos fechados, no entanto com a mente aberta. Sem mais nada para entender, nem desprezar. Como se parte da parte e do todo. Santificado, enfim.

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Não há de se colher o diamante, se, antes, não houver a lavra da rocha bruta.

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Serei sacerdote da religião da literatura; no altar da palavra embebida com o vinho-sangue da transpiração poética, mesmo frente ao cálice da dor prosaica.

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Há pouco li Euclides da Cunha; antes, uns contos de Machados de Assis; entre um e outro, versos de Augusto dos Anjos. E fiquei, com a minha pena sertaneja, mais casmurro; quase um alienista a fazer troça do meu Eu e outros egos.

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