Pílulas para o Silêncio (Parte LXVII)

Grand délice que celui de noyer son regard dans l’immensité du ciel et de la mer! Solitude, silence, incomparable chasteté de l’azur! une petite voile frissonnante à l’horizon, et qui par sa petitesse et son isolement imite mon irrémédiable existence…

Charles Baudelaire, em Le spleen de Paris

 

Paraíso (quase) artificial

Prazer de deixar os olhos a vagarem pela inominável cauda do insondável silêncio do além; silêncio além da terra, do céu e do mar. E do ar. Silêncio de solidões castas e ignotas, quase santificadas de tão azuis e pecadoramente humanas! um leve aceno de vida no pano rubro do horizonte (quase) artificial, e que, pela sua altiva pequenez, imita o insulamento da minha (ir)remediável existência. Eis o confiteor deste poeta sem paraíso.

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O milagre de uma prosa poética: arrimada dos vícios dos jornais, assenhoreada dos ritmos plurais, a espalhar virginais augúrios de loucuras várias no chão natural e duro da canhestra vida.

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Em mim, quase de repente, a violenta ânsia de assassinar, ó fúria incomensurável!, tão admirável imbecil, que parecia traduzir, em seus atos (e, principalmente, em suas omissões), o espírito do novo tempo.

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O dia sempre cai. Quando a paz, a grande paz dos cansados do trabalho do espírito, adormecer. E os pensamentos, vestidos das cores bruxuleantes do macio crepúsculo, sempre farão com que a cortina do dia, enfim… caia.

Comentários

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  1. Lilia Souza 27 de abril de 2014 23:02

    Beleza, amigo Clauder!
    Como sempre, você nos brinda com “O milagre de uma prosa poética”!!

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