Pílulas para o Silêncio (Parte LXXI)

O silêncio não é a sua palavra secreta — pelo contrário, a sua palavra cala perfeitamente o próprio silêncio.
(Giorgio Agamben, em Ideia da prosa)

O segredo do silêncio

Nada, nem o próprio silêncio, com a sua coivara de nonadas. Nada, nem o suspiro do vácuo, com as suas físicas profundas e glaciais. Nada, nem a não presença de tudo, pois, dentro do oco dela, desconfio, haverá o brasão de tudo que, um dia, se foi: sonhos, lembranças, tragédias, pragas, risos, omissões, coitos abortados, partos postergados… homilias de (des)venturados. Enfim, nada, nada… nem o próprio nada, com as suas ausências de ossadas.
Em verdade, em verdade, o segredo do silêncio é nem perceber que, nele mesmo, há segredo; ou melhor, que ele, silêncio, nem exista, na forma de palavra; apenas, bem-aventurado, calado e vazio de espírito, opere o arcano milagre de tão só habitar entre nós, como uma espécie de verbo-vazio encarnado.

***

Entre todas as palavras, haverei de encontrar a mais simples e pura; aquela que mora entre os lábios de todos, que abençoa a carne do diálogo de cada dia entre os homens e mulheres das ruas. Com ela, eu transmudarei meus pretensos versos em coisa de serventia. Como um pão novo e quente, minha poesia, suprema bênção, se fará boa-nova a ser ofertada e servida, toda manhã, na mesa da infausta humanidade.

***

Uma ideia ou outra sempre surge na cabeça de quem, puro e quase tolo, se abre para o pântano do inominável desconhecido.

***

Autêntica é a semente da palavra que surge ao acaso, boa sorte do verbo.

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Elder Heronildes 7 de agosto de 2014 13:55

    Meu caro Clauder, abraços.
    São pílulas, mas servem. São pequenas, mas resolvem. Inoculam nos sentimentos, às vezes mais fortes que a razão, fazendo do ser, num volteio do inconsciente da consciencia, um estado de espírito, na eterna vontade de ser.
    O silencio, mesmo sem se escutar, é força púlsante, é elemento que se volatiliza, fazendo de cordas invisíveis, pois silenciosas, um instrumento de grandeza interior, na exteriorização de sons inaudíveis, próprios de criatividade da arte de dizer, de fazer,de burilar com as palavras com maestria, como voce.
    Transfigura-se das suas palavras, a pureza do silencio, o silencio dos sábios e dos bons. O silencio que, sem ruído, enternece,ilumina e faz vibrar.Voce, sutilmente, fez do silencio, um elemento transformador do ser, como se em gritos, fizesse do finito um lampejo do infinito.
    Vai aqui a minha admiração, áquem da magnitude do silencio. Elder Heronildes

  2. Sueleide Suassuna 30 de julho de 2014 13:33

    Caro Clauder,

    Quem faz prosa é prosador.
    Quem faz versos é poeta.
    E que faz ‘pílulas’, é o quê?
    Acho que sua escrita se revela muito bem nesse gênero.
    Prefiro Clauder mais ‘piluleta’ que poeta. Nao se ofenda. Digo isso com certa ressalva pois ainda nao li toda a sua produçao poética. Mas saiba que há muita poesia nessas pílulas-pérolas que de vez em quando você distribui aos leitores, a fim de tirá-los da lertargia.
    Bravo! continue nos prescrevendo as suas pílulas; ela nos faz um bem danado.
    Um abraço,
    Sueleide

  3. Webston Moura 29 de julho de 2014 1:38

    Beleza, Clauder! Encanto e pensamento. Forte abraço!

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