Pílulas para o Silêncio (Parte LXXVII)

Na porosa fronteira do silêncio a mão ilumina a terra inacabada.

(Eugénio de Andrade, em “Sobre a palavra”)

 

Na folha…

Na folha, o musgo do barulho. Cevado na procissão das algaravias e dos avaros testemunhos. Enquanto a memória, pasma de pavor, oculta-se sob os frutos tardios da memória.

Enquanto isso, no corpo…

***

No corpo…

No corpo, despido dos pecados do não desejo, a tentação de olvidar os prestimosos últimos pecados. Pouco depois, sabia-se morto em si, sepultado dentro de um corpo, ainda julgado vivo; porém, na (des)razão de tudo, escravo do lascivo e legítimo império do medo.

Enquanto isso, na palavra…

***

Na palavra…

Na palavra, o refrigério da dor, ao cabo em que lhe marca o corpo com o sinete da tragédia; augusta chama, sentida e pressentida, nos esgotos das reminiscências insurrectas, no passivo sótão das supremas honrarias.

Enquanto isso, na razão…

***

Na razão…

Na razão… Silêncio.

A razão sempre ficará à espera que a Poesia traduza, interminavelmente, a vida.

Enquanto isso, a terra inacabada. E, nada mais.

 

clauderarcanjo@gmail.com

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Sueleide Suassuna Thin 4 de novembro de 2014 20:12

    Belíssimas "Pílulas", Clauder! Realmente, belas. Reitero: Prefiro-te "piluleta" a poeta!

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