Pílulas para o silêncio – Parte XXV

Rabugices de um deprimido

A maior depressão é a minha. As sessões de análise são a minha dose de vinho de diária, a fim de evitar a de cicuta. Todavia, sinto, em meio a este torvelinho de funda amargura, que Amada já me trocou pelo Aparício das Couves, um ser sem o menor senso da necessária e humana amargura. Pode?
Já nem posso cometer o desatino chique do suicídio, pois me chamariam, por causa da Amada e de Aparício, de um ridículo provinciano, corno e sem causa. Pode?

***

Sem alumbramentos, a Poesia se me anuncia. Sem vícios, a Prosa se me acumplicia. No entanto, sem lamentos, a folha em branco me azucrina, e me humilha com sua paz vazia.

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Não se faz nada sem o sonho e o desvario. Até o Nada precisa da loucura do Caos.

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Tanto faz como tanto fez, amar e odiar são sempre nós da mesma forca.

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Ouvi a Noite, ela franziu o seu cenho de nuvens, e pediu-me: luz. Na alvorada, escutei o Dia, ele arrepiou a face em brilho, e clamou-me: — Apaguem tudo, por favor.

***

Flagrante da província.
— Sou mais o silêncio.
— Não me digas! E por que tu falas tanto?
— Não percebeste ainda? Apenas para evitar ouvir a besteira alheia.
— Essa é boa!

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Clauder Arcanjo — Escritor
clauderarcanjo@gmail.com

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