Pílulas para o Silêncio (Parte CI)

A criança passou, coçou o pé do poeta e pediu-lhe um verso para o dia.
O menestrel, enfiado no saco da melancolia, escandiu duas estrofezonas soturnas e sem rima; o menino, ao tempo em que chutava o ar, cantarolou uma cançoneta para a manhã, deixando o vate a mascar o chiclete amargo da tristeza.

***

O velho passou, mexeu com os bagos do poeta e pediu-lhe uma notícia para a noite.
O menestrel, assentado sobre o saco da filosofia, proferiu duas metafísicas incertezas, prudentes e sem conclusões; o velhote, ao tempo em que cuspia sobre o palavreado transcendente, solfejou uma má-nova para a madrugada, deixando o poetastro a repisar o primado do novo, e oco, jornalismo.

***

Um poeta federal passou, tripudiou com os poemas do poetinha de província e pediu-lhe que recitasse um dos seus líricos e canônicos achados.
O poetinha chutou o ar, coçou os bagos e arrotou uma risada, provinciana e sem nenhuma metafísica.
Os olhares da criança, do velho e do poeta de província fulminaram o “poeta de fama nacional”.
clauderarcanjo@gmail.com

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