Pílulas para o Silêncio (Parte LXXXI)

No silêncio da noite, uma flauta se queixa.
Do fundo imemorial do tempo, a flauta chora…
(Helena Kolody, em “Sortilégio”)

No silêncio da noite

Um silvo de espera ecoou sobre a courama do entardecer. Lá, muito longe, ficou, pendurada nos espinhaços da tarde agourenta, a sombra de uma ave maldita a sobrevoar o sertão: única esmola de sombra naquele desvario de dor, espinhos e desesperança.
De repente, do fundo ancestral das cacimbas das ribeiras, no tempo a que tudo espera e a tudo provem, a cantiga da mãe-d’água e o arrepio da possível presença do caipora. E as mulheres sertanejas, em alvíssaras de chuva, prostraram-se a rezar sobre o lajedo escaldante, dado a antevisão da nuvem bojuda que, após engravidar e parir, chora.
No silêncio da noite. No silêncio imemorial da noite.

***

Ergo-me…

Ergo-me perante a ofensa descabida e sento-me diante da homilia sacrossanta dos desventurados.
Ergo-me perante a traição e sento-me diante da sagração sublime à límpida amizade.
Ergo-me perante a excomunhão dos valorosos e sento-me diante da pacificação dos mansos e valiosos filhos-guerreiros da província.
Ergo-me para levantar a voz, em tom de protesto e ira, e sento-me diante da sapiência dos que calam, para dignamente louvar os artífices da comunhão e da paz entre os povos.

***

Morte

A morte só se ajoelha (e treme) perante os que se doam e se ofertam diante do altar do próprio sacrifício.

***

Não me venha com o seu descaso que o meu caso já é caso de azo e compromisso.
Clauder Arcanjo
clauderarcanjo@gmail.com

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 × 3 =

ao topo