Pílulas para o Silêncio (Parte LXXXV)

Por Clauder Arcanjo

Não costumo escrever. Quer dizer, não sei. Eu bem que gostaria de escrever uma tragédia ou um soneto ou uma ode, mas têm regras. Elas me atrapalham. Não é para amadores, não.
(Raymond Queneau, em Exercícios de estilo)

Preparação

Bem, vejamos. Três dicionários: um completo, um de latim, outro de citações. A mesa posta: lápis, borracha, papel e silêncio. E, no embornal do corpo, a costumeira vontade da concepção literária.
No azul do céu, nuvens a navegarem num firmamento de gris e infinitas expectativas.

***

Início

Vou, então, de tragédia. O vermelho do sangue e o acre sabor da dor sempre me atraíram.
Cerco-me de Shakespeare. Hamlet me olha com seu olhar de sofisma e de funesta interrogação:
— Escrever ou não escrever? Eis a questão.
Ao canto, Otelo, com sua espada de indecisão e drama, assombra-me.
Pouco depois, atiço a palavra. Nada. O verbo trava, e a tragédia bebe o vinagre da sentença no cálice suicida.
Cai o pano, sob uma risada ríspida e mortífera.

***

Segundo ato

Arvoro-me poeta e, por conseguinte, tento metrificar o momento pálido nos meus braços de vidros, nas minhas mães trêmulas; obra desta vontade tíbia.
A rima não se me apresenta, e o escandir do verso vira causa de desmesurado tormento e de profunda (des)ilusão.
Cerco-me de Augusto dos Anjos, de Camões, de Baudelaire, de Cecília, de Drummond, de Bandeira. Outro Eu, rar’Os Lusíadas, pouc’As Flores do Mal, outra Viagem, um’A Rosa do Povo, sem Estrela da Manhã me afogam; porém, nada do afago da melopeia na minha própria folha.
Bem depois, instigo, com uma chicotada de fúria e vontade, a rima. Nenhum sinal. O poema murcha, feito crisálida tosca.
Peço para cair o pano. No proscênio, uma gaitada estupefaciente e irônica.

***

Desfecho

Nadando em regras, entro fundo no oceano da inspiração.
Contudo, creia-me, preciso relaxar! Não se navega altaneiro no mar da literatura com preocupação: se se segue o regramento ou se domina o timão.

 

Clauder Arcanjo
clauderarcanjo@gmail.com

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Tânia Du Bois 23 de fevereiro de 2015 23:50

    Clauder,

    algumas “pílulas” por dia, para reflexão, são suficientes para promover e mudar a nossa percepção do mundo.
    Parabéns
    Abraços,
    Tânia.

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