Pílulas para o Silêncio (Parte LXXXVIII )

Semente

A alma geme e expulsa um feto imaturo. Na luz da primeira manhã, sob a marca do sofrimento, ele faz cara de choro. Num esgar de sutileza e espanto.
Com pouco, os primeiros passos e a algaravia das descobertas. Ser-semente.

***

Milho

Na tarde alumiada por fogo e brasa, ele castiga o próprio corpo com o chicote fervente dos hormônios. Na desgraça alheia, a colheita de um prazer com assomos de entulho nos músculos e na boca árida. Ele, com o rosto prenhe de afoitezas e descomunhão, em uivos de loucura e sanhas.
Com mais um pouco, a plantação se espicha nos olhos mercuriais. Em cavalgada de um ser-milho.

***

Sabugo

Na madrugada de véus e máscaras de espectros, ele arrasta a carcaça no vão de reumatismos e orfandades. No alpendre vazio, a rede vaga, o gibão furado, as mãos engelhadas, a boca desdentada, a mente em rodopio. Sem forças para, na dor última e abismal, proferir o grito derradeiro.
Meia-noite, a passagem no braseiro das lembranças. Para, eternamente, ungir-se como um ser-sabugo.

 

clauderarcanjo@gmail.com

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Lilia Souza 17 de abril de 2015 16:23

    Que bonitas suas Pílulas, amigo Clauder!!
    Mais uma vez, sinto-me privilegiada!
    Abraço.

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