Pílulas para o Silêncio (Parte XCI)

Colóquio com Herberto Helder

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Há momentos em que a segurança prática dos dias impulsiona a razão, e a emoção se cala. Na distrofia das falsas verdades, o poema não emerge. Afogado no enganoso anúncio das horas, na falsa limpeza do riso branco e insípido. Não adianta forçar, a luz do pragmatismo ofusca o parto da palavra. E o verso, antes da concepção, aborta.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

Contudo, e apesar de tudo, há uma revolta orgástica que rompe os grilhões… e a gênese aflora. De início, quase como se em estado de milagre. Primado de primevas sementeiras. Na boca da cena mais improvável, quase à beira do precipício, o poema se anuncia e, em gesto tresloucado de embaraço, põe e impõe seu genuíno ovo.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

E o mundo faz-se (uni)verso por ter se anunciado em verbo. Verazmente harmônico, mesmo que nutrido e consumido na miserável harmonia das coisas, o poema rói o tutano do instante, enquanto o traduz.

— Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Não há por que espetar tanto mistério, a espinha dorsal do poema está nesta luta gloriosa e desumana. E ele só subsistirá, unigênita comunhão do arco e da lira, se ferrar o tempo e a carne.

 

Clauder Arcanjo
clauderarcanjo@gmail.com

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Josselene Marques 21 de junho de 2015 19:10

    Poderosa pílula! Realizei uma prazerosa viagem por estas maravilhosas linhas e entrelinhas. Parabéns!

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