Pílulas para o Silêncio (Parte XCII)

Por Clauder Arcanjo

Todo o vazio desta tarde…

Todo o vazio desta tarde
Labora no rumo da aurora
Desafio de outro alguém…

… e, quem sabe, outro de nós, encravado no alpendre do dia, a mascar o fumo da rotina, consiga se expressar melhor, sem se cansar da vazia homilia. No rádio, um pastor se maldiz da vida, enquanto os sábios não reescrevem a prescrita teogonia.

Um deus novo, na estrada pedregosa,
Oferta-me um destino de Sísifo
E eu — na hora cabal da posse…

… iludo-me, com a crença no destino da utopia. Com pouco, enfastiado, resolvo largar-me ao sabor da corrente do nada, preso aos escolhos da lida, e sem ansiar com o pastoreio da alegria. A melancolia me basta como única, fiel e confidente companheira.

Já não sei de mim
Já não sei de ti
E, contudo, sonho dentro
Do oco de mim.

Na tradução dos últimos pesadelos, o mapa de um dédalo infinito. Se ouso caçar o hoje, o amanhã me inquieta e paro. Se, ao contrário, farto-me com o outrora, o presente me alucina e me cinge.

— Em cima da palavra
O lodo do mito
Embaixo da língua
A víbora do poder…

Não há carne no verbo, tão só o poderio de ossadas e ilusões. Porém, a vida se resume a este quintal de sepulcros, in verbis.

 

clauderarcanjo@gmail.com

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