Pílulas para o Silêncio (Parte XCIX)

Para os redatores dos jornais, a transcrição é uma prova de fogo: confundem o som das palavras, tropeçam com a semântica, naufragam na ortografia e morrem do infarto da sintaxe.
(Gabriel García Márquez, em Eu não vim fazer um discurso)

Com o furo de reportagem, o redator sonhou com uma tiragem extra que cobrisse os furos do orçamento da velha gazeta da província.

***

Passou os olhos pela redação e deu, no canto à esquerda, com a presença de um foca. Aproximou-se, pigarreou para chamar-lhe a atenção e fez uma preleção acerca da oportunidade que o esperava no calor dos acontecimentos: “Saltarás da condição de foca para a posição de dromedário deste nosso valente pasquim!”
Com receio da memória do pobre estagiário, jogou-lhe no colo trêmulo o gravador do editor policial. Tão manchado de sangue quanto de mentiras fúnebres.

***

O carro tomou o rumo da periferia, e o redator fez o sinal da cruz; ele, não mais ateu do que mercenário.
Na volta, duas horas depois, a fita recheada de declarações no fragor da notícia.
A fim de assinar a matéria principal, o editor-chefe deu folga ao redator e ao foca: “Vocês merecem!”
Correu para a máquina de datilografia, com o intuito de transcrever, fielmente, o recolhido.
No outro dia cedinho (Extra!… Extra!…), a manchete propalava um homicídio, quando fora um suicídio. No corpo da matéria principal: José virou João, Maria transmudou-se em Madalena, o bairro saiu da periferia para o Centro, a sintaxe recebeu oito tiros mortais, a semântica foi trucidada e arrastada ao longo de seis páginas… Sem falar na ortografia. Esta, coitada!, infartou na abertura do pútrido furo de reportagem.
Nunca se venderam tantos exemplares na nobre província.

Clauder Arcanjo
clauderarcanjo@gmail.com

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