Pílulas para o Silêncio (Parte XCV)

Por Clauder Arcanjo

Na feira…

Olhos arregalados nas ancas das mocinhas da roça. De vez em quando, a soprar-lhes acenos lúbricos.
Nas bancas, a demonstrar riqueza: distribuindo conversa farta e a pagar rodadas de pinga.
Todos os domingos, logo cedo, assumia o posto de conquistador da província.

Na praça…

Olhos castos nas mãos da nova pretendente. De vez em quando, a confidenciar-lhe um cadinho de pretensa paixão.
Na quermesse, a demonstrar prudência: distribuindo aleivosias amorosas e a pagar, apenas para a sua dama, uma maçã do amor.
Todos os domingos, à noite, ostentava o posto de bom-moço da cidade.

Em casa…
Olhos assustados no portão de entrada. De vez em quando, a seespantar com qualquer barulho dentro do lar.
Na cama, a enfiar-se sob os lençóis: distribuindo beijos na esposa e a confidenciar-lhe como se extenuado. “Não quero conversa,seu safado, cuide antes de lavar as louças; e, depois, vá dormir no sofá da sala”.

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Todos os domingos, madrugada, o temor avocava-lhe o posto de maior barriga-branca da redondeza.

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