Pílulas para o Silêncio (Parte XCVI)

No início

Havia espinhos nos seus pés, quando em casa. Tudo se lhe apresentava cafona, enfadonho e chato. A comida inchava na boca. As conversas dos parentes enfaravam-lhe e doíam-lhe nos ouvidos.
De lindo, apenas o desconhecido. De belo e tentador, tão só a linha do horizonte.

No meio

A liberdade nos passos, quando na estrada. Tudo se lhe descortinava surpreendente, atrativo e banhado de beleza. A comida, pouco lhe importava. A algaravia das ruas era música para as oiças encantadas pelo ouro do agora.
De feioso e tristonho, apenas o baú da memória. Como precaução, enterrara-o no fundo da mente, lá na esquina do esquecimento.

No reinício

Certa noite, sob o abrigo de um luar manchado de dor, ele sentiu uma vontade estranha no peito. De repente, os pés pediram-lhe a paz da acolhida; a boca, sedenta por um tempero caseiro; os olhos, revoltos, em busca de tudo o que lhe lembrasse do tesouro de outrora.
Mergulhou, então, no fundo do além-mar de si e, quando deu por ele próprio, estava sentado na esquina do esquecimento, a folhear as figuras das reminiscências. Agora, sim, pronto para um novo reinício.

 

clauderarcanjo@gmail.com

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

seis + cinco =

ao topo