Pinacoteca para todas as artes (Salão de artes Dorian Gray)

A mais nova exposição da Pinacoteca foi aberta hoje. Cem artistas e trezentas obras. Há gêneros diversos e artistas de várias gerações e expressões. Anônimos e consagrados de todas as partes do nosso elefante. Os números são volumosos, especialmente, pela quantidade de artistas. O que esperar? Obviamente, o exercício do leitor não é o mesmo demandado de uma exposição temática, de um só gênero ou um só artista. Uma boa curadoria e organização lhe permite, nesses casos, acompanhar o avanço da trajetória de um artista; a passagem por várias escolas e gêneros; ou comparar o exercício de intertextualidade entre autores… Enfim, os caminhos são inúmeros e vários museus e exposições no mundo todo fazem isso. Não é novidade, mas nos garante uma certa verticalização do olhar.

A exposição da Pinacoteca, no meu entender, guarda outros propósitos: democratizar os espaços de exposição, reconhecer e identificar artistas anônimos, encorajar os artistas iniciantes a particicipar dos ritos de contato com o público. Além disso, ter suas obras ladeadas por um Dorian Gray, Iaperi Araújo, Córdula, Ana Antunes… é um gesto simbólico de dessacralização das artes para ampliar públicos. Nesse sentido, gostei do que vi. Mas alguns elementos devem ser considerados, principalmente, nesse contexto: havia ficha de indicação do autor e técnica das obras, mas não vi um só material (se tinha eu não vi) que nos desse uma pequena nota biográfica dos artistas e que descrevesse o propósito do salão. Não consegui compreender, nem sequer intuir, o sentido da distribuição das obras em cada sala, o que as unia em cada espaço (tema? gênero? estilo?…); o tema da exposição, se havia, também não li em nenhum lugar e não consegui perceber o conceito trabalhado.

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No meu entender, essas são pistas para uma lacuna significativa da exposição que ajudam a nos sentir meio perdidos, mesmo em meio às maravilhas pescadas por um olhar esforçado em encontrar o sentido do conjunto. Salões como esse são uma grande oportunidade de montar uma cartografia das artes plásticas potiguares: o que esses artistas estão nos sinalizando? como contam nossas terras e quais influências estão alimentando suas obras? quais paralelos podemos traçar entre as artes em suas diferentes gerações? Essas são apenas algumas perguntas que um trabalho de organização e curadoria pode declinar sobre as obras que atenderam a chamada para exposição, a fim de utilizá-las na organização do salão, nos apresentando um texto visual coeso com os achados. Mas, você não terá nenhuma colher de chá nesse sentido. É preciso ir preparado para olhar as obras sem muito apoio, ou fazer você mesmo a análise do conjunto, ou intuir sua organização.

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Diante desses hiatos (e porque há peças que eu quero rever e descobrir), voltarei para apreciar com mais vagar e paciência as obras e tentar decifrar as perguntas que curadoria não respondeu. Aliás, não li em lugar algum os créditos da exposição. Reitero: vale a pena ir à exposição. Também vale a pena voltar. Há muita coisa que merece ser vista e re-vista. E vale a pena também dar um tratamento mais profissional às artes. Uma exposição como essa, em que temos um número expressivo de artistas da terra, e que não se registra a presença do governador, já é um sitoma da peleja das artes em nosso Estado.

Comments

There is 1 comment for this article
  1. João 8 de Maio de 2016 18:25

    Lamentavelmente estive no sábado 17h e a pinacoteca estava fechada,

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