Pink Dog, Cão-de rosa, Cadela Rosada: uma aventura, mas não sejam indulgentes

PINK DOG
Elizabeth Bishop, New Poems, 1979

[Rio de Janeiro]

The sun is blazing and the sky is blue.
Umbrellas clothe the beach in every hue.
Naked, you trot across the avenue.

Oh, never have I seen a dog so bare!
Naked and pink, without a single hair…
Startled, the passersby draw back and stare.

Of course they’re mortally afraid of rabies.
You are not mad; you have a case of scabies
but look intelligent. Where are your babies?

(A nursing mother, by those hanging teats.)
In what slum have you hidden them, poor bitch,
while you go begging, living by your wits?

Didn’t you know? It’s been in all the papers,
to solve this problem, how they deal with beggars?
They take and throw them in the tidal rivers.

Yes, idiots, paralytics, parasites
go bobbing int the ebbing sewage, nights
out in the suburbs, where there are no lights.

If they do this to anyone who begs,
drugged, drunk, or sober, with or without legs,
what would they do to sick, four-legged dogs?

In the cafés and on the sidewalk corners
the joke is going round that all the beggars
who can afford them now wear life preservers.

In your condition you would not be able
even to float, much less to dog-paddle.
Now look, the practical, the sensible

solution is to wear a fantasía.
Tonight you simply can’t afford to be a-
n eyesore… But no one will ever see a

dog in máscara this time of year.
Ash Wednesday’ll come but Carnival is here.
What sambas can you dance? What will you wear?

They say that Carnival’s degenerating
— radios, Americans, or something,
have ruined it completely. They’re just talking.

Carnival is always wonderful!
A depilated dog would not look well.
Dress up! Dress up and dance at Carnival!

1979
*

Cão-de-rosa
Elizabeth Bishop, New Poems, 1979; tradução de Nina Rizzi

[Rio de Janeiro]

O sol é escaldante e o céu azul.
Guarda-chuvas vestem a praia de todos os matizes.
Nua, entre o passo ordinário e a corrida, você cruza a avenida.

Ó, nunca vi um cão tão nu!
Nu, cor-de-rosa, sem um único fio de cabelo cão-de-rosa…
Assustados, os passantes recuam e olham fixamente.

Claro que estão mortalmente com medo de raiva.
Você não está louco; é um caso de sarna
tem o olhar sagaz. Onde estão seus bebês?

(Amãe, feito enfermeira, com as tetas cheias, supensas)
Em que favela você os escondeu, puta pobre, cadela,
enquanto implora, vive de seus olhos e sagacidade?

Você não sabia? Saiu em todos os jornais o que fazem
para resolver esse tipo de problema; como você acha que lidam com os medigos?
Eles os seduzem como a iara e os jogam na maré cheia.

Sim, idiotas, paralíticos, parasitas
todos vão nadando no esgoto que flui nas periferias escuras.

Se fazem isso com quem implora, padece,
bêbedos e drogados e sóbrios, com as pernas tomadas pela gota e a cirrose
o que não fariam por um doente de quatro, cadelas?

Nos cafés, calçadas e esquinas
a piada é arengue com os mendigos
ao invés de dar esmolas, dão coletes salva-vidas.

Mas você, cão-de-rosa, não seria capaz
de remar com suas pernas ou mesmo boiar.
Veja, o prático, a sensível

solução é se mascarar.
Esta noite você não poderá se dar ao luxo de ser essa m-
erda monstruosa. Será única, cão-de-rosa mascarado fora de época.
Vem uma quarta de cinzas, mas aqui todo dia é carnaval, feriado nacional.
Você pode sambar? Como vai se fantasiar?

Todos dizem que o Carnaval é um festejo degenerado
– as rádios, os estadunidenses, essa gentinha
que arruina tudo o que é da gente. Mas é conversa fiada.

O Carnaval é sempre maravilhoso, redenção!

Contudo, um cão depilado, mesmo rosa, não fica bem.
Vá! se fantasie, se mascare e dance o Carnaval!

Fortaleza, 2011.
*

Apesar de gostar bastante da tradução de Pink Dog de Paulo Henriques Britto, considero ser muito mais uma transcriação e, como adoro o poema em sua originalidade, resolvi fazer a tradução que, bem-lida, chega a ser outra transcriação, por mais que eu tentasse ser fiel ao original.

Abaixo, a tradução do Britto:

CADELA ROSADA

[Rio de Janeiro]

Sol forte, céu azul. O Rio sua.
Praia apinhada de barracas. Nua,
passo apressado, você cruza a rua.

Nunca vi um cão tão nu, tão sem nada,
sem pêlo, pele tão avermelhada…
Quem a vê até troca de calçada.

Têm medo da raiva. Mas isso não
é hidrofobia — é sarna. O olhar é são
e esperto. E os seus filhotes, onde estão?

(Tetas cheias de leite.) Em que favela
você os escondeu, em que ruela,
pra viver sua vida de cadela?

Você não sabia? Deu no jornal:
pra resolver o problema social,
estão jogando os mendigos num canal.

E não são só pedintes os lançados
no rio da Guarda: idiotas, aleijados,
vagabundos, alcoólatras, drogados.

Se fazem isso com gente, os estúpidos,
com pernetas ou bípedes, sem escrúpulos,
o que não fariam com um quadrúpede?

A piada mais contada hoje em dia
é que os mendigos, em vez de comida,
andam comprando bóias salva-vidas.

Você, no estado em que está, com esses peitos,
jogada no rio, afundava feito
parafuso. Falando sério, o jeito

mesmo é vestir alguma fantasia.
Não dá pra você ficar por aí à
toa com essa cara. Você devia

pôr uma máscara qualquer. Que tal?
Até a quarta-feira, é Carnaval!
Dance um samba! Abaixo o baixo-astral!

Dizem que o Carnaval está acabando,
culpa do rádio, dos americanos…
Dizem a mesma bobagem todo ano.

O Carnaval está cada vez melhor!
Agora, um cão pelado é mesmo um horror…
Vamos, se fantasie! A-lá-lá-ô…!

1979
*

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Nina Rizzi 19 de julho de 2011 13:06

    prosa e música, chico.
    grata pela leitura.
    um beijo 🙂

  2. chico m guedes 19 de julho de 2011 3:55

    e um cachorro madrugueiro uiva (em silêncio, não assustemos a vizinhança) admirado na beira de uma poça que reflete duas imagens da mesma lua

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