Plano Palumbo – Ribeira

Por Eduardo Alexandre

PLANO PALUMBO – RIBEIRA In CRÔNICAS DE ORIGEM – A cidade de Natal nas crônicas cascudianas dos anos 20 – Raimundo Arrais (Organização e Estudo Introdutório)

O NOVO PLANO DA CIDADE Luís da Câmara Cascudo (A Republica, 30 de outubro de 1929)

A cidade

Officialmente existe a Cidade do Natal ha tresentos e trinta annos. Relativamente parece com este titulo a oito ou nove annos. Ou melhor, imita cidade recem fundada se o enveizamento das arterieas não denunciasse a velhice.

O “chão elevado e firme” onde se plantou a cidade é a praça André de Albuquerque. A Ribeira permaneceu sempre um mixto de commercio e de casas raras que as grandes cercas distanciavam. O Potengy, caminho de venda para Pernambuco, abrigou a fila de casinhas seguindo curso. A conquista de leste é modernissima.

Nós podemos dizer que a cidade se dividiu em tres “blocos”: O da Ribeira, o da Cidade- Alta, o Ribeirinho. Petropolis, Tyrol e Alecrim não podem entrar no computo porque são recentes. Inda vive quem assistiu a construção da primeira residencia em Tyrol, das primeiras casas em Petropolis (nomes de sitios do governador Alberto Maranhão) quem caçou cotias na atual praça Pedro Velho e jacús na avenida Hermes.

Os tres “blocos” estendem-se numa irregularidade coherente. Havia a coherencia do factor economico que era a facil remessa dos productos pela via maritima. A cidade segregada entre morros e mar não tinha sinão vagas nocções do commercio do interior que se escoava rumo ao sul, nos comboios lentos partidos do Seridó ou vindos do Piauhy atravez de Ceará e Rio Grande do Norte; via Assú.

A cidade isolada guardava tenues liames interprovinciaes. O Potengy que déra nome à região, indicava o futuro da terra guiando para o mar os recursos realizados.

A cidade bem cedo teve o aspecto que hoje conserva em traço geral. O “bloco” ribeirinho estendeu-se da Praticagem ao Oitizeiro. O segundo, a Ribeira, ganhou profundidade indo esbarrar nas areaes das Roccas e para leste com Areial, dahi, em curva lenta, articulando-se numa continuidade de cochicholos, espraiava­se nos taboleiros cobertos de cajueiros bravos e mangabas.

O terceiro “bloco”, tirante a “subida da ladeira”, a Rua da Cruz, era o maior bairro, o bairro residencial e de commercio meúdo.

Tivemos desta forma tres direções para uma cidade pequena. Em 1873 inda se dizia – “Cidade do Natal? Não ha-tal”! O amonteado do casario plantado a vontade dentro de alinhamentos invisiveis deu bem cedo o plano disparatado d’uma cidade em curvas, obliquas e ângulos agudos.

As rectas traçadas afoitamente são atitudes modernas ou exigencias imperiosas duma situação topographica que não concentiu que a indifferente attenção dos homens desvirtuasse o que naturalmente estava feito.

Dahi a Rua da Cruz, Junqueira Ayres, João Manoel, Conceição e Rua Nova. O nome dispensa provanças de modernidade relativa.

O que Natal apresenta atualmente é a ligação dos tres “blocos” iniciais com a teia de aranha das ruas irracionais. Depois da André de Albuquerque, descendo para o rio, a tortuosidade das ruas lembra um delírio de linhas convulsas. São as parallelas Paula Barros e Presidente Passos e a da Misericordia, riscos a doida, quebrados, tortos, alinhados filas de casas que parecem ter sido fixadas a murro. É a obliquidade da rua Ferreira Chaves. A incrivel sinuosidade da Fellipe Camarão, e desmantelo da do Commercio (que Sampaio Correa pedia como remedio um phosphoro e duas latas de Kerosene), o angulo agudo formado pela Fellipe Camarão com a Bôa Vista findando na montanha russa da Bicca-da-Telha, são os exemplos dos caminhos trêmulos indecisos das cidades doentes de collocações estheticas.

A cidade em conjunto poderia ser explicada em dois grandes arcos. Um antigo, irregular, atrabiliario, incorrigivel em todo, parte tradicional, parte iniciadora da cidade centenaria, arco cujas extremidades tocam as Roccas e o Baldo. A recta partida destes extremos marca a verdadeira cidade de Natal. O outro arco, parte moderna. Já racciocinado, um pouco monotona pela sisudez geometrica do enxadrezado, terá seus extremos tocando os dois do primeiro arco e correndo de leste a sul emquanto o primeiro parte do norte ao oeste.

As conquistas das primeiras praças, Augusto Severo e Leão XIII que eram pantanos, o alinhamento da Silva Jardim que era um alagado, trouxe o pensamento do xadrez porque este partia da idéa do primeiro retangulo saneado, plantado e conquistado ao rio. A recta surgiu como uma expressão de segurança. A Tavares de Lyra já demonstra isto. Os fulcros seriam as rectas que partindo do rio subissem para o morro. O desenho geometrico iniciou­se inda timido mas coherente e seguro. Tavares de Lyra – Silva Jardim – Sachet – Dr. Barata. A lucta daria a visão do rio, inimigo tradicional e alliado admiravel. O prolongamento da Sachet acceitou o plano inconsciente e primitivo do começo do xadrez. Manoel Dantas que vivia no Natal velho sonhou em 1909 a Ribeira “enxadrezada”.

A cidade do Natal, entre rio e mares, ficou como uma massa esperando o aspecto. O titulo já possuia desde 1599.

O NOVO PLANO DA CIDADE Luís da Câmara Cascudo (A Republica, 7 de novembro de 1929)

A Ribeira no “Master Plan”

O “Master plan” que o sr. Omar O’ Grady entregou ao technico Palumbo é a utilisação da massa citadina num plano racional de correcção. Correcção na parte existente. Os elementos constitutivos num trabalho de urbanismo serão forçosamente aquelles que se relacionem e aperfeiçoem o aspecto esthetico da cidade aproveitando seus recursos em paysagem e conjuncto, a facilidade de circulação e viação urbanas, os transportes e recreios. A existencia do “Zoning” e a inevitável arte civica, dão a demão derradeira.

O “master plan” em sua primeira prancha dá a impressão de inteligente resultado destes elementos. Os acessos à Cidade Alta passarão a quatro. A circulação será garantida pela ampliação das ruas e avenidas. O aspecto total apresentará uma harmonia da nossa Cidade tradicional com sua paysagem corrigida pela intelligencia.

Não estamos na phase eterna do “paper dreams”. Uma forte attitude de realisação pede naturalmente a collaboração das solidariedades collectivas. Urbanismo é justamente the science of linking up connection between things. A phrase é de Unwin.

Um “master plan” não é uma luva que se applique immediata e totalmente sobre a mão. É passivel de remodelações e de concessões. É um programa que póde e deve ser alterado em detalhes. No mais é como uma lei de bom gosto que se seguirá no curso da vida material da cidade.

Não se pretende estabelecer um dogma definitivo em assumpto urbanístico. Os americanos são assim. Riscam uma cidade e constroem-na. Como quem ergue um bolo. Assim resconstruiram São Francisco da California e formaram Okland. Assim o inglezes fizeram na moderna capital australiana de Camberra.

Parece que em Natal seguir-se-há o conselho do professor Steinhoff, da Universidade de Vienna. Para Steinhoff não é possível determinantes porque uma cidade é um organismo vivo que cresce sob a influencia múltipla de elementos variaveis, como o factor economico, a idéa pessoal dos dirigentes, a moda architeturial, etc.

Mas o que será a Ribeira quando o “master plan” estiver victorioso materialmente?

Começa o passeio pelas parallelas ao rio Potengy. As ruas que cahem perpendicularmente sobre o rio serão vistas em segundo lugar.

Rua do Commercio. Terá o mesmo comprimento. Será corrigida. Soffre duas deflexões, duas passagens obrigadas na Tavares de Lyra e Ferreira Chaves que hoje não vem até o rio. Corre a Commercio desde a Central até a Praticagem. Dahi em diante seguirá com outro nome, numa outra avenida que figurará na cidade novissima das Dunas. Terá, quando corrigida, uma praça-caes que servirá para as pequenas embarcações. Onde é a velha Alfândega.

Os quarteirões da Commercio serão cinco, em tamanho decrescente. Trez travessas communicarão com o rio. Actualmente a Commercio não tem sinão o inutil e esquecido caes de Palacio. Uma outra praçuela ajardinada cahirá sobre o eixo da Ferreira Chaves. Ficará a Commercio com seis accessos para o Potengy. E pequenos parques à beira rio.

Rua Dr. Barata seguirá corrigida. Conserva-se-hão as travessas Venezuela, Argentina e Quintino Bocayuva que será alargada.

Rua Frei Miguelinho. Mesmo tamanho e direcção. As ruas transversaes Nysia Floresta, Ferreira Chaves e Triumpho que vêm agora atravessando a Sachet e terminando na Frei Miguelinho, terão uma valorização inesperada. As duas primeiras irão até o rio; coincidindo na articulação das travessas da rua do Commercio. O final da Frei Miguelinho é a Silva Jardim. Dahi em diante é o domínio dum plano ideal, dum plano de extensão, desdobrando os horizontes da cidade do Natal.

Senador Bonifacio, a rua das Virgens, alinha-se, acerta-se e ponto final. Avenida Sachet será uma característica de belleza simples e de amplidão magnífica. Virá desde a Junqueira Ayres, cortará o parque Augusto Severo fazendo triângulos rectos e isoseles, atravessa a Tavares de Lyra, Nysia Floresta, Ferreira Chaves, 15 de Novembro (porque se mudou o nome de Triumpho?) e irá em recta até a Silva Jardim. Como a Frei Miguelinho e Commercio a Sachet fixar-se-há numa immensa avenida contornante que abraçará Natal.

Almino Affonso. Rua irregular. Rua dançando charleston. Entrará uma linha rasoavel de decencia e de ordem. Virá em recta com a largura de 18 metros desde o contorno da Silva Jardim (a Almino hoje é uma rua de novello em mão de macaco) até intestar-se com o inicio da Avenida Rio Branco que terá passado os terrenos da Villa Barreto. Um becco que é a curva do Triumpho, a pracinha onde está a Prophylaxia, desapparecerão. A Almino ficará, ao avistar a Rio Branco que agora vem morrer deante do Bom Jesus da Ribeira depois das soluções de continuidade da Villa Barreto, etc., etc., numa praça nova que substituirá a actual Leão XIII. A Almino ficará nesta praça que deixará o Bom Jesus isolado e com um outro aspecto de imponencia e expressão architectural.

O novo quarteirão que substituirá a praça Leão XIII terá como limites as ruas Nysia Floresta, Sachet, Tavares de Lyra e a futura praça. Nesta, no lado sul virá a Rio Branco que passando as ruas Sul e Norte (lado direito da Domestica e esquerdo do Carlos Gomes) attingirá ahi o seu terminus.

A rua General Glicerio (porque este nome?) ficará rectificada.

E as ruas perpendiculares do rio? A rua Sul irá ligar-se na curva da Felippe Camarão. Ella actualmente existe até a cota 5 mas é impraticavel, tem 16 metros. O prolongamento da praça Augusto Severo chamado Travessa Aureliano terá 16 metros. Estender-se-ha até Deodoro, passando a rua Norte. Agora ella possue este mesmo traçado, é de quase impossível subida. Este prolongamento será uma via de ligação desde a Deodoro até o Potengy. Justamente neste local estará o caes que substituirá o da Praticagem. De mim mesmo encontro nestes 16 metros uma largura que não satisfará futuramente a necessidade do trafego cada vez maior. Dentro de dez annos a Prefeitura terá que ampliar este algarismo. Mesmo agora a travessa já é de circulação intensa e nos dias de trem coincidindo com as vindas de algodão e embarque para a Great Western sua estreiteza é axphyxiante. Os 16 metros serão paliativos. Melhor seria remediar de vez.

A Tavares de Lyra continuará com os seus 22 metros até a cota 5, passando à direita da praça que isolará a Igreja Bom Jesus e terminará num local reservado para monumento. As ruas Nysia Floresta e Ferreira Chaves subirão até a avenida Deodoro.

A Silva Jardim vai até a cota 5 e se confundirá com o prolongamento da Deodoro. Uma “reserva” dará o futuro mercado do bairro­baixo. A Silva Jardim é rua-grande na cidade novissima que fará esfarelar-se os arruados das Roccas, Areial, Limpa, Canto do Mangue, Chamaré, etc.

Por ora só se passeiou na Ribeira systematizada. A impressão é de audacia muito respeitoza. Tudo ou quase tudo se poupou. Os traçados obedeceram a linha tradicional parallelos e verticaes ao rio. Apenas o braço do homem alinhou racionadamente os valores confuzos que herdamos em nome da cidade.

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