A plenitude que nos restaria, nos falta

Por Maria Clara Paiva

Em um de meus monólogos diários, dignos de prognóstico de loucura – quem dera, minimamente, perdoável -, cheguei a um estado de angústia avassalador. Por bem, rasgo o verbo, sugerindo alguma reflexão: qual foi a última vez em que se sentiu, verdadeiramente, ouvido? Ou ainda, qual foi a última vez em que emprestou ouvidos e paciência a alguém?

Em tempos de aplicativos, homens são caracteres e emoções são símbolos gráficos. Há sugestão para frases, há previsão de texto para o que se quer escrever, ou ainda, ler. Tornamo-nos, aos montes, calculistas e programados, de modo que uma gostosa risada sonora pode ser resumida, satisfatoriamente, por três letras em uso do caps lock. Os momentos de humanidade que nos restariam, agora, nos faltam.

Parece, aos meus sentidos e sentimentos, que a paciência está virando produto dos ópios legalizados pela Medicina. Se se doa atenção, retira-se interesse demonstrado pelo olhar. Se se é solicitado auxílio, os horários da agenda tornam até a paz mundial um segundo plano. Se se profere frase inesperada pelo ego alheio, uma inimizade mortal se instaura. Se se olha nos olhos de estranhos, supõe-se ser por razões carnais de efeitos bioquímicos.

“Como viver melhor em 5 passos”, “12 dicas para melhorar seu relacionamento”, “saiba como se tornar alguém de sucesso”: a vida não se subordina a um receituário, só a lamentável ausência dela.
Viver demanda paciência e, por sua vez, paciência demanda vivência, experiências, conhecimento acerca dos extremos, dos meios e dos fins – ainda que obscuros na flor da imaturidade humana sem prazo.

Enquanto, eu, você e os demais, não dominamos a plenitude da vida, seguimos descobrindo, em nossa pequenez, os seus reflexos que o universo, gentilmente, aponta-nos: rasgando o verbo, emprestando ouvidos, e quebrando o orgulho sobre a importância de ser ouvido.

Monologar faz parte. Quem sabe, um dia, seja arte?

Natural da Cidade do Sol. Estudante de Psicologia. Amante de prosa, poesia e música clássica. Contempla a beleza de um abraço apertado e da espontaneidade de um sorriso largo. Não dispensa um moleskine dentro da bolsa. Devaneia mais do que se acha à primeira vista. [ Ver todos os artigos ]

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