Pobres crianças ricas

Por Manoel Julião Neto

Dia 24 de dezembro, véspera de Natal, dia em que todas as famílias se reúnem para comemorar a data do nascimento de Jesus Cristo. As festas do Natal é a data de confraternizações, em que as famílias se abraçam e se beijam, dia de se fazer grandes amizades, esquecerem as magoas e perdoar, deixar os rancores para trás. Data de projetos para um novo ano que se aproxima. Data onde todos trocam presentes com as pessoas que mais se amam. Quase em todas as casas num canto da sala colocam uma arvore de Natal, nas casas mais abonadas as arvores são lindas com bolas cintilantes com uma ponteira em forma de estrela, rodeada com festões nas cores verde e vermelha. Existem até casas com presépio com manjedoura, animais e os três Reis Magos enfileirados. Mas existem as casas dos pobres que também tem uma arvore de Natal, que é feita com qualquer galho de pau encontrado no quintal, enfeitadas com caixinhas de fósforo enroladas em papel de presente, rodeado com papel de seda, o galho da arvore é enfiado numa lata cheia de areia, vale do mesmo jeito das arvores dos mais abonados. As festas natalinas são para todos, não tem escolha monetária para o Natal, a festa é para comemorar o nascimento de Jesus Cristo, de um Deus só para todos, que não descrimina e nem excluiu nenhum dos seus filhos que povoa a terra.

Mas alguns anos atrás era véspera de Natal, a noite estava linda, a lua e as estrelas clareavam a terra, cidades decoradas com temas natalinos encantavam suas populações. Chopins e lojas com grandes Magazines com monstruosas decorações de lâmpadas coloridas faziam alegria das crianças ricas. Festões verdes e vermelhos enfeitam ruas e avenidas, senhores de barba branca vestidos de Papai Noel chamavam as pessoas para entrarem nas lojas e fazerem suas compras. Criança de classe media alta tiravam fotografias no colo de Papai Noel, outras crianças que os pais também tinham o poder monetário alto, escolhia os seus brinquedos eletrônicos de última geração. As Prefeituras, os Governos Estaduais e Federal gastavam fortunas com decorações de pontes, avenidas e palácios onde eles mesmos moram ou trabalham, ainda tem Prefeitos que ficam disputando com outras cidades quem faz a arvore de Natal mais alta. Mesmo Assim forçam os habitantes a economizar energia elétrica, como também os obrigam a um tal de horário de verão que não serve para nada, tudo isso para mostrarem imponência de suas belas administrações que estão fazendo. Tem Prefeitos de algumas cidades do Nordeste que fazem grandes eventos como: Alto de Natal, Alto disso, Alto daquilo, são tantos eventos monstruosos que se perdem as contas, pagam cachês astronômicos a cantores que trazem do sul do País, e as crianças das periferias precisando de ventiladores nas salas de aula, de bebedouros, de uma merenda melhor nas suas escolas, mas os gestores matam a fome dos pobres com bandas famosas no centro da cidade, cantando musicas com palavras obscenas deturpando as mentes das crianças, e todos ficam satisfeitos, elogiando o Prefeito que a banda era muito boa. Foi num desses dias que a fadinha Benedita saiu de sua terra dos excluídos para dar um passeio e visitar os seus amiguinhos. Pegou sua varinha de condão, apontou para o céu e saiu voando, passou por varias cidades. Chegando à favela da Maré no Rio de Janeiro, foi até o barraco onde Joãozinho seu amiguinho morava, ele estava radiante de alegria, o pai estava trabalhando como frentista num posto de gasolina, ganhou do pai um carrinho de presente, na ceia de Natal comeram frango assado de padaria, farofa e refrigerante. Saiu para São Paulo, viu muitas crianças dormindo nas marquises das lojas. Na Praça da Sé, e debaixo dos viadutos crianças cheiravam cola e fumavam maconha. A fadinha saiu muito triste com que estava acontecendo com as crianças de São Paulo e todo País, até nas cidades menores do Brasil a droga tinha chegado. Saiu indignada, como um relâmpago voou até a cidade de Natal, foi até a favela do Maruim, encontrou Tininha uma de suas amiguinhas brincando com uma boneca de plástico que o pai lhe deu de presente. A fadinha Benedita saiu radiante, quando olhou estava na Praia de Ponta Negra, viu muitas crianças nos sinais de trânsito pedindo esmola, meninas ainda criança vendendo o corpo no calçadão para os estrangeiros que vinham fazer turismo sexual. A Fadinha saiu chorando de pena daquelas inocentes tão maltratadas pela vida. Saiu voando sem destino, até chegar a São Paulo novamente. Passando pelo bairro do Morumbi, um dos bairros mais chique de São Paulo. Sobrevoando por uma cobertura viu um casal de crianças tristes, cada um no seu quarto, uma das janelas da cobertura estava aberta, a Fadinha Benedita entrou rapidamente, a primeira criança que estava triste assustou-se:

— Quem é você?

— Ora, ora, eu sou a fada Benedita!

— Fada Benedita? Eu nunca vi fada negra. Você é ladrona, entrando pelas janelas das coberturas das pessoas ricas. Quem entra pela janela, só pode ser assaltante, vou telefonar para 190 chamando a polícia, dizendo que uma negra quer assaltar nossa cobertura.

— Não amiguinha, não sou assaltante, eu sou fada mesmo, eu sou uma fada Brasileira, eu venho da terra dos excluídos.

— Mentira, não existe fada Brasileira, todas as fadas são Européias, todas são loiras e bonitas de olhos verdes, você é uma negra muito da feia, seu cabelo é pixaim que parece bucha de aço, negro no Brasil não tem poder de nada. Só servem para serem empregos domésticos e faxineiros.

— O que é isso queridinha, eu sou fada mesmo, e Brasileira, olhe minhas roupas, verde, amarela e azul, minha varinha de condão tem poderes maior do que essas outras fadas que você conhece.

— Não. Todas as estórias infantis que conheço, as fadas são bonitas, como Sininho do Peter-Pan. As heroínas são louras de olhos azuis, Alice no País das Maravilhas, a Bela Adormecida, Branca de Neve a Gata Borralheira e Chapeuzinho Vermelho. Das Estórias Brasileiras só vi falar no Saci Pererê um negro feio que só tem uma perna e está constantemente com um cachimbo na boca.

— Tudo bem. Sabe por que acontece tudo isso? Todas as pessoas que você se relaciona são preconceituosas, estão lhe educando muito mal, colocaram na sua consciência que você não deve se relacionar com pessoas da cor negra, principalmente onde você estuda.

— Mas é assim mesmo, em todos os meus livros de História do Brasil, só tem negros amarrados apanhando, e acorrentados, então eles só servem para apanhar.

— Vamos deixar essa conversa de lado, depois voltamos ao assunto. Quer ver o que faço com minha varinha?

— Eu sei. Essa sua varinha de condão é comprada no Paraguai, sua varinha de condão é Pirata, iguais os DVDs e CDs que vendem nas calçadas.

— Quem lhe disse isso?

— Quase tudo que o Brasil vende hoje em dia é Pirata, aqui não se respeita ás leis. As coisas de qualidades vêm tudo dos Estados Unidos, comprado na quinta avenida, em Nova Iorque aonde minha mãe vai todos os anos, só para mostrar os casacos de pele que ela tem guardado, e não pode usar aqui porque não tem neve.

— Não é bem assim, aqui também tem coisas muitas boas, sem ser falsificadas, não generalize tudo que você ver.

— Eu e meu irmão somos muitos desconfiados das pessoas de sua cor, todos eles são assaltantes, fazem sequestros e roubam bancos, assim meus pais falam todos os dias, não se relacione com negros.

— Como eu estava lhe dizendo, eu sou uma fada Negra e Brasileira. E vou lhe ensinar mais um nome que você não conhece, Afrodescendentes, é o nome que o pessoal de nossa cor são chamados agora, nós vamos ganhar até estatuto, só falta o Presidente sancionar a lei. Desde 2006 a nossa história entrou no currículo escolar, só que a escolas não colocam na grade.

— Fada Brasileira, Afrodescendente, estatuto, entrar na grade das escolas, nunca vi falar nisso. Engana-me que eu gosto.

— Como é seu nome meu amor.

— Juliana…

— Qual é sua idade?

— Onze anos.

— Minha amiguinha Juliana, você parece uma criança muito revoltada, não gosta de negros, hoje é véspera de Natal, de confraternizações e de se fazer novas amizades, você é muito ranzinza, está com o coração cheio de magoas e revolta. Você fica nessa cobertura fechada, sem comemorar a data de nascimento de Jesus Cristo. Eu quero lhe ajudar.

— Como uma pessoa como você pode me ajudar? É negra, não tem instrução, os piores empregos no Brasil são de vocês, até para entrar numa faculdade, foi preciso inventarem cotas.

— Sabe por que isso? É porque os governos não têm escolas de boa qualidade para todos, ver se os filhos do Ministro da Educação estudam em escolas estaduais, ver se os filhos dos Secretários de Educação dos Estados estudam em escolas do estado deles, e comem aquela merenda ruim que fornecem, eles deviam colocar os filhos deles para estudar junto com todas as crianças das periferias para dar exemplo.

— Você é uma negrinha muito atrevida, tem respostas para tudo.

— Eu sou defensora das classes que a sociedade rejeita, eu faço inclusão, por isso sou fada. Você já viu falar no Ministro do Superior de Justiça? Ele está corrigindo muita coisa errada no Brasil.

— Eu sei quem é, é um negro que aparece na Televisão escorada numa cadeira, papai o detesta. Papai disse que negro quando sai da senzala para casa grande, só quer se mostrar.

— Não amor, negro é um ser humano como outro qualquer, o Ministro só está fazendo o trabalho dele.

— Eu só acredito que você é fada de verdade, se fizer alguma coisa mirabolante.

— Por exemplo.

— Faça esses animais de pelúcia ficar vivas.

A fada Benedita apontou varinha de condão para um cachorrinho de pelúcia e um gatinho que estavam na cama de Juliana, disse as palavras mágicas:

— “Igualdade para todos”

Rapidamente os dois animaizinhos viraram um cachorrinho e um gatinho de verdade, começaram a correr pelo quarto de Juliana. A menina ficou admirada com a mágica da fada Benedita. O gatinho e o cachorrinho pularam para o colo da menina, lambia o seu rosto, não saíam do colo dela.

— Agora acredito você e fada mesmo, quem diria uma fada Brasileira. Vou chamar meu irmão.

Saiu correndo e foi chamar o irmão Juliano, que estava em outro quarto, jogando Vídeo Game. Juliana chegou com o irmão, que era mais novo do que ela. Juliano ficou decepcionado com a fada que estava fazendo mágicas, os bichinhos de pelúcia da irmã estavam todos correndo dentro do quarto. Perguntou:

— Essa fada não sabe de nada, ela é negra.

— Sabe sim Juliano, esses bichinhos não tinham vida, agora tem.

A fadinha Benedita começou a conversar com os dois, até convencê-los que era uma fada de verdade.

— Eu não sabia que no Brasil existia fada, e mais negra isso é novidade pra mim, na minha escola nunca contaram uma estória de fada brasileira.

— Pois tem Juliano, eu sou uma fada negra, e gosto muito de crianças, tanto faz ricas como pobres todas são iguais.

— Nada disso fada Benedita, todas as crianças são diferentes, umas tem a pele branca, e outras tem a pele preta. – respondeu com descriminação.

— Eu sei Juliano, mais isso não faz diferença, todos são seres humanos, são protegidos pelo mesmo Deus.

A fadinha fez um círculo no ar com sua varinha de condão, os bichinhos de pelúcia que estavam correndo no quarto, foram para os seus lugares de origem, ficaram parados como estavam antes. A fadinha retomou a conversa:

— Por que um dia de Natal como hoje, que todas as crianças estão felizes com os pais, e vocês estão aqui fechados?

— Nossos pais não tem tempo para nós. Meu pai é um grande empresário, vive em reuniões, ele diz que precisa cada vez mais ganhar dinheiro. Minha mãe todos os dias tem por obrigação de ir aos salões de beleza mais caros de São Paulo, ela diz que a aparência é tudo na vida de uma mulher, depois vai encontrar com as amigas. Os dois só chegam em casa depois que estamos dormindo. E hoje dia de Natal eles foram passar num hotel de luxo com uns empresários que vieram dos Estados Unidos, e tratar de negócios.

— E o carinho com você dois, quando é que eles dão?

— Nós dois só temos o carinho do nosso motorista e da babá. Mas os nossos pais são muito bons, nos dão presentes de telefone celular, de computadores dos mais modernos, tablete e videogame, pode olhar que nos nossos quartos tem de tudo que uma criança rica precisa. Nos dias de domingo nossos pais dão dinheiro para passearmos no Chopin com a babá e o motorista. Todas as semanas minha mãe me obriga ir ao cabeleireiro, a manicure, cada semana troco de penteado, vou a maquiadora, tenho muitos batons, tenho até cílios postiços, sim também faço as sobrancelhas.

— Tudo isso que seus pais estão lhe proporcionado, está tudo errado, vocês tem que ser crianças, salão de beleza e coisa de adultos, criança tem que brincar as meninas de bonecas, de cazinhas, fazer comidinhas para as bonecas, desprezar essas parafernálias eletrônicas, sair da frente do computador para conversar besteiras com as amiguinhas da escola, esse tal de rede social é um acesso para os pedófilos. O computador para crianças das idades de vocês, só para pesquisas escolares. O Juliano tem que brincar de carrinhos, bola de gude, jogar futebol com seus coleguinhas, arranhar os joelhos, levar topadas arrancar o couro da cabeça dos dedos, passear de bicicleta, fazer seus próprios carrinhos de madeira, levar pelo menos umas duas marteladas nos dedos. Isso é que é ser criança, o tempo de adultos de vocês chegará.

— Nós não temos o que reclamar de nossos pais.

— Eu sei Juliana que eles são bons para vocês, mais só isso não basta. O mais importante é o carinho, o amor e o afeto que os pais têm que dar para os filhos, vocês dois são duas crianças revoltadas dentro dessa cobertura, são presos iguais a passarinho dentro de uma gaiola, não colocam os pés na terra, não tem amigos, vocês estão perdendo a infância, vocês são umas pobres crianças ricas, que não conhecem nada da vida, estão virando dois robôs sem nenhum sentido de vida.

— Eu queria tanto ter uma boneca, mais minha mãe só me dar de presente roupas de marca, batons, e outras coisas que eu não gosto. Eles já até determinaram o que nós vamos ser no futuro, eu queria ser veterinária, meus pais querem que eu me forme em comércio exterior. Juliano quer ser bombeiro, meu pai disse que ele vai se formar em administração de empresas, para no futuro eu e ele tomarmos conta dos negócios deles. Mais nós não queremos.

— Depois eu vou contar uma estória bem legal para vocês dois. Mas agora vamos passear.

— Como passear? Nós só podemos sair da cobertura com o motorista e com a babá, não passeamos com estranhos.

— Não sou estranha, já somos amigos, quero mostra-lhe um pouco do mundo. Deixe comigo, vamos passear agora.

Apontando a varinha mágica para os dois, A fada Benedita disse as palavras mágicas:

— “Igualdade para todos”.

Os três saíram voando, pelo céu estrelado, com a lua muito clara. Vendo a cidade lá do alto, com os prédios iluminados, com decorações natalinas, quase em todas as grandes lojas tinham árvores de Natal, os dois estavam encantados com a aventura em que a fadinha Benedita estava proporcionando a eles.

— Fadinha nós não vamos cair? Estou com medo!

— Não tenha medo Juliano, pode dar cambalhotas no ar, você está protegido pela minha mágica.

As duas crianças brincavam, davam cambalhotas no ar, riam de felicidade com a liberdade que estavam tendo naquele momento, era uma alegria de criança livre, que podiam se locomover sem nenhuma interrupção. Benedita mostrou aos novos amiguinhos as casas dos seus velhos amigos. Mostrava como eles estavam contentes com brinquedos tão simples, como carrinhos e bonecas de plásticos, pais pobres que tinha o maior carinho com os seus filhos. Passaram no barraco de Joãozinho, ele depois da ceia pegou no sono no sofá, o pai o colocou nos braços e o deitou na caminha pobre, depois o cobriu e deu-lhe um beijo na face. Juliano vendo aquela cena bonita do pai de Joãozinho, disse:

— Papai nunca fez isso comigo.

— E nem comigo. – disse Juliana.

— Sabe por que isso acontece? Na casa de Joãozinho tem amor, os pais se preocupam com os filhos. E eles são pobres, mas tem muito carinho e afeto para dar ao filho. Ao contrario de vocês que tem de tudo na sua casa, mais falta o principal, o amor.

— É mesmo Benedita, nós somos ricos, mais somos pobres de afeto e de carinho, na minha casa os nossos pais não tem tempo para nos escutar.

— Benedita eu quero ir a praia jogar bola. – pediu Juliano.

— Vamos.

A fadinha Benedita apontou a sua varinha para frente, os três saíram voando, de repente estavam em Natal na Praia do Forte. Estava tudo calmo, só eles três na imensidão de areia alva, com o mar batendo nos arrecifes.

— Onde estamos Benedita?

— Estamos em Natal, na Praia do Forte.

— Nós chegamos aqui depressa, agora eu acredito você é fada mesmo Benedita.

Dizendo isso Juliano se abraçou com a fadinha e Juliana também. Os três embolaram-se na areia, ficaram correndo atrás um do outro, quando de repente, Juliano se lembrou:

— Onde vamos arranjar uma bola para jogar? Papai nunca deixou eu jogar bola em toda a minha vida, hoje quero.

A fadinha Benedita fez um gesto com a varinha, apareceu uma bola grande, colorida, Juliano adorou e saiu correndo chutando a bola corria de um lado para o outro chutando a bola, numa felicidade contagiante, coisa que nunca tinha sentido.

— Juliana, o seu irmão nunca jogou bola com os amiguinhos?

— Nunca tivemos direito a brincar com outras crianças, nossos pais ocupam todo o nosso tempo, é aula de inglês, espanhol, computação, balé, natação e outras coisas mais. O que Juliano tem mais vontade na vida é receber um carinho de mamãe. Um dia ele ralou o joelho de propósito só para mamãe passar remédio e fazer um carinho nele. Ela mandou a babá colocar metiolate e nem olhou para o ferimento dele. Juliano ficou triste. Chorou muito, eu que fui consolar. A maioria dos pais ricos hoje Benedita, só pensa em dinheiro, o Brasil está contaminado de pais como os meus, não dá atenção para os filhos, só pensam em ganhar dinheiro, em ficar ricos e fazerem fortunas, e esquecem os filhos, dão de tudo a eles, mais não lhes dão o principal, que é amor e carinho.

— Não se preocupe que vamos dar um jeito nessa situação. Hoje nós vamos nos divertir, hoje é véspera de Natal.

Juliano chegou cansado de correr atrás da bola, e rapidamente falou para Benedita:

— Fadinha estou morrendo de fome!

— O que você quer comer Juliano?

— Comida de menino pobre. Frango assado, farofa, arroz e um garrafão de refrigerante de 2 litros.

— Você nunca comeu essas coisas tão simples que toda criança tanto aprecia?

— Não Benedita, eu e minha irmã só comemos Hambúrguer, sanduíches e batata fritas, essas coisas que as crianças ricas gostam de comer em Chopins, eu quero comer umas coisas comuns, que as crianças que não tem tanto dinheiro comem.

— Muito bem, vamos lá.

Saíram voando, voando, até chegar numa churrascaria onde varias crianças com os pais comiam animadamente, correndo de um lado para outro.

— Esqueci, não tenho dinheiro. – disse Benedita.

— Você é fada, com sua varinha você pode transformar papel em dinheiro.

— Sabe o que acontece Juliano? Assim eu ia enganar o homem que vende o frango, eu ia produzir dinheiro falso, o homem que vende frango teria prejuízo, nunca devemos dar prejuízo a ninguém, desde agora você aprenda a ser honesto. Está certo.

— Está certo Benedita. – respondeu Juliano.

— Por isso ninguém vai deixar de comer o frango assado, eu tenho dinheiro aqui comigo. O dinheiro que mamãe me deu para eu ir ao salão de beleza vamos comer frango assado com farofa. – disse Juliana.

O garçom trouxe um recipiente com arroz, outro com farofa, o frango vinha cortado numa travessa, uma porção de vinagrete e um refrigerante de dois litros. Os dois irmãos se deliciaram com a iguaria que nunca tinham comido na sua vida. Terminada a refeição, a fadinha saiu voando com os amiguinhos por vários lugares, mostrando as crianças que sofriam morando nas ruas. As favelas onde as crianças moravam que não tinha escolas boas, e muitas outras coisas que atingiam as crianças e ninguém davam jeito. Quando Benedita disse:

— Vamos passar num local onde vocês nunca foram e não sabe que existe.

— Vamos!

Benedita saiu pelo céu rodopiando, e os dois irmãos acompanhando. Chegando num certo local, onde tinha uma casa grande, com bastantes crianças, todos carequinhas, quase nenhum tinha cabelos, as meninas tinham bonecas e os meninos com carrinhos de plásticos, brincavam com alegrias contagiantes, as luzes estavam acesas, tinha uma arvore de Natal simples, e muitos enfeites.

— Que casa é essa Benedita? Com tantas crianças carecas?

— São crianças que tem câncer, ninguém sabe quantos deles irão sobreviver, mas estão todos alegres lutando pela vida.

— É mesmo Benedita, eu e meu irmão temos tudo que é material de qualidade, temos de tudo, nossos pais são consumista, só pensam no dinheiro. E tanta criança que não tem o que nossa família possui e são tão alegres. Eu não sabia que tinha crianças com essa doença.

— Vamos pra casa que eu ainda tenho umas estórias para contar a vocês dois. Mas antes disso vamos descer num local para comermos churrasquinho de gato:

— O que é isso Benedita?

Desceram e pararam numa barraquinha onde um senhor vendia churrasquinho num espeto. Benedita pediu um para cada um, passou na farofa e entregou as crianças, e uma latinha de refrigerante para cada um, Juliano queria mais e dizia:

— É muito bom Benedita. Por que chamam churrasquinho de gato?

— Isso é coisa do povo bom brasileiro, que de um limão faz uma limonada.

— Que coisa gostosa Juliana, agente só come aquelas porqueiras que imitam dos Estados Unidos, chisburgue, hambúrguer, cheios de milho verde, ervilhas, batata palha, maionese e ketchup, bom mesmo é churrasquinho de gato.

— Vamos embora crianças. – disse Benedita.

Os três saíram voando de mãos dadas, fazendo piruetas no céu cheio de estrelas brilhantes. Lá embaixo a cidade de São Paulo estava clara com as lâmpadas Natalinas acendendo e apagando, acendendo e apagando. Como uma flecha os três entraram na janela da cobertura de Juliana e Juliano.

Sentaram na cama de Juliana, a fada Benedita foi conversar com as crianças:

— Bem meus amigos como disse a vocês vou repetir mais uma vez: Vocês dois são crianças lindas, de bons corações, só está faltando a vocês o que o Mestre Paulo Freire dizia: conhecimento de mundo. 12% da riqueza do País estão nas mãos dos mais ricos, onde sua família está inserida. 28% estão nas mãos da classe média alta. 10% na classe média, 20% na classe pobre e 30% a população que está abaixo da linha da pobreza, aqueles que catam comida do lixo. O que eu quero mostrar a vocês que existe uma desigualdade social muito grande no nosso País. Todos nós somos humanos, temos o mesmo Deus, que não devemos excluir ninguém de nossa sociedade, tanto faz cego, cadeirantes, surdo mudo, homossexuais, negros, velhos e índios somos todos iguais, nunca descrimine um ser humano, todos nós somos irmãos.

— É isso mesmo Fadinha Benedita, eu não sei para que meu pai quer tanto dinheiro, Temos essa cobertura, uma bela casa na praia, um apartamento em Nova Iork, um em Paris, uma casa em Miami, dois helicópteros, um avião para fazer suas viagens, mas só se preocupa com bolsas de valores. Minha mãe todos os dias faz compras sem necessidades, papai dar um cartão de crédito para ela, que não tem limites, mamãe pode gastar com o que quiser que ele cobre. Só vive tomando chá com as amigas da alta sociedade, só pensa em futilidades, para ela produtos de beleza, academia de malhação, médicos dermatologista para ela é tudo, esteticistas, massagens, saunas e outras besteiras mais é no que ela se liga, não nós dar um beijo. Quem mais sente é Juliano, a mim ela quer me fazer de adulta, e eu não gosto. Logo que eles chegarem farei uma reunião, para dizer-lhes que somos criança e precisamos viver como tal, e que também queremos carinho e amor. Vamos fazer isso num é Juliano?

— Vamos sim.

— Muito bem, é isso mesmo Juliana, peça a seus pais uma conversa franca, diga que vocês estão sofrendo, com a falta do amor e do carinho deles, que eles tenham mais tempo para acompanhar a infância de vocês, que não se prendam tanto ao dinheiro e as coisas fúteis da vida, exija carinho e afeto, sem briga e sem rancor.

Os dois irmãos correram e abraçaram a Fada Benedita, com muito carinho e agradecendo pelos conselhos que tinham lhes dado.

— Bem meus amiguinhos estou indo embora, mais daqui uns meses eu volto para ver como vocês estão.

A fada Negra chamada Benedita apontou a sua varinha de condão e saiu voando pelo céu estrelado e com a lua muito clara. A fadinha continuou a sua rotina de visitar as crianças que tinham necessidades de ter alegria, de ponta a ponta do Brasil. Passado seis meses a fadinha Benedita foi ao Bairro do Morumbi em São Paulo. Olhou, Juliana e Juliano estavam sentados no chão e seu pai sentado na cama contando estórias para eles, a mãe também estava presente. A fada esperou um pouco e todos foram dormir. Ela entrou devagarzinho fez um círculo com a varinha de condão, todos os bichos de pelúcia de Juliana tomaram vida, pularam na cama da menina. Juliana acordou atordoada vento os bichinhos correndo no quarto, notou logo que aquilo era coisa da Fada Benedita, quando olhou ela estava na sua frente, a abraçou, Juliano também vinha chegando foi se juntar as duas no abraço, Benedita Perguntou:

— Como estão vocês?

— Agora é outra coisa Benedita, estamos vivendo num mar de rosas. Destruímos o abismo que tinha entre nós e os nossos pais. O nosso pai reduziu o tempo de trabalho, nossa mãe deu um basta nas coisas fúteis, nossos pais todos finais de semana, nos levam para a praia, para os parques, jogamos futebol, eles nos ouvem, compartilham com nossos problemas, nos ajudam nas tarefas da escola, acabamos com a discriminação racial, Juliano é amicíssimo dos filhos do porteiro que são dois negrinho muito gente boa, chamados Robinho e Biriba. Minhas colegas podem vir aqui em casa, os amigos de Juliano também frequentam nossa casa, estamos muito felizes, graças a você Fada Benedita. Eu agora acredito que no Brasil também existe fada e negra. Juliano já arrancou até o couro da cabeça de um dedo, ficou todo contente, lembrando-se de você.

— Sendo assim vou embora muito feliz por vocês. Até outro dia. E lembrem, nunca exclua ninguém, somos todos iguais.

— Sim fadinha, eu convenci papai, fazer doações todos os meses para aquelas crianças carequinhas. As empresas dele estão financiando os deficientes que praticam esporte, a todos eles.

— Muito bem Juliana, essa é uma inclusão social muito digna de uma família feliz, repartir o pão como fez Jesus Cristo.

— Adeus fadinha apareça sempre.

E os dois irmãos ficaram na janela de sua cobertura acenando para fada Benedita que subiu para o céu se misturando com as estrelas.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Ana Paula 9 de agosto de 2013 12:12

    Excelente o texto do Sr. Manoel Julião Neto.

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