Pobres jovens do século 21

Por Céli Regina Jardim Pinto
ZERO HORA

Neste momento, há no mundo três grandes manifestações de jovens: na Espanha, no Chile (foto) e na Inglaterra.

Na Espanha, um movimento de grande intensidade toma as praças das principais cidades, tendo seu epicentro em Barcelona e em Madri. No Chile, as manifestações de jovens já têm mais de um mês e tomam as ruas de Santiago. Na Inglaterra, há dias, Londres parece uma cidade em chamas e Birmingham, a segunda maior cidade inglesa, já sente os reflexos.

Pergunto ao leitor: de quais das manifestações acima você tem conhecimento? A não ser que seja do ofício como eu, garanto que a grande maioria dos leitores, mesmo os mais atentos, só tem notícias dos acontecimentos em Londres, e me pergunto por quê. Afinal, se prestarmos atenção, as três manifestações têm muito mais em comum do que creem aqueles que dividem o mundo entre vândalos de um lado e pacatos cidadãos de outro.

As três manifestações são lideradas por jovens que sofrem as consequências das mesmas decisões de política econômica e cultural de governos que se sucedem nestes países. Na Espanha, o movimento teve como mote o desemprego, que atinge 25% da população em geral e chega à faixa de 40% entre os jovens de 18 a 24 anos. Os indignados, assim eles se chamam, enfrentam o governo nas ruas pedindo reformas radicais.

No Chile, estudantes universitários, com o apoio de estudantes do ensino médio, dos reitores e docentes, saíram às ruas para pedir o fim da mercantilização da educação. A grande maioria dos estudantes universitários está endividada nos bancos e não pode saldar as universidades privadas e públicas, ambas pagas. Dados da Universidade Diego Portales apontam que 60% dos chilenos têm renda menor que a média de Angola e 20% têm a renda igual à renda média da Noruega. É fácil entender o endividamento.

Em Londres os bairros atingidos pelas manifestações são os que mais têm sofrido com as políticas privatistas, neoliberais e antimulticulturalistas nos últimos 30 anos. É nessas periferias que se concentra uma grande massa de desempregados, ingleses pobres, filhos de imigrantes ou não.

Portanto, há muitos pontos de encontro entre essas três manifestações, mas não são elas que nos fazem ter tantas notícias da Inglaterra e tão poucas da Espanha e do Chile. Quais são, então, as diferenças: em todas elas, a polícia tem agido com bastante violência, na Espanha e no Chile a ação da polícia tem sido vista com desconfiança, pois são jovens de uma classe média empobrecida, na maioria branca, que têm direitos a manifestação.

E, tanto em um país quanto no outro, tem havido ocupações, tomada de praças, tomada de ruas e feridos. Já na Inglaterra, o que vemos nas imagens são ingleses negros, descendência indiana, paquistanesa, entre outros. Eles são os vândalos, que atacam a polícia inglesa (aquela mesma que matou o brasileiro Jean Charles), que queimam propriedades, que tomam as ruas.

Pobres dos jovens da Espanha e do Chile, pois são na maioria brancos empobrecidos e não chamam a atenção, porque são vistos como dotados de direitos, não podem ser chamados simplesmente de vândalos. Ademais, estão contestando o pacto político-econômico que tem mantido no poder partidos velhos e sem projetos, mas absolutamente legitimados pelas organizações financeiras internacionais e pelas elites locais. É melhor deixá-los se manifestarem sem fazer muito alarde.

Pobres dos jovens ingleses, revoltados ocupam todos os noticiários de TV, páginas da internet e jornais. Eles, na verdade, não oferecem perigo, pois podem ser varridos da cena, são nomeados como um bando de arruaceiros, vândalos e, como diria um velho presidente brasileiro do início do século passado, apenas um caso de polícia.

Céli Regina Jardim Pinto – Professora da UFRGS, PhD em Ciência Política (Universidade de Essex – Inglaterra)

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