POEMA DA VAIDADE DO ANIVERSÁRIO

Fernando Monteiro

Não é bem um poema
neste 20 de maio dos 62 anos
que – olho – oh, sumiram
menos
que estes seis versos
persistentes na lembrança:
“Embora nada devolva
a hora do esplendor na relva,
da glória na flor,
não sofreremos;
antes, encontraremos força
no que ficou para trás”.

Versos que eu jamais
saberia escrever
porque são de William Wordsworth.
[Então, o poema é dele.]

Recife, 20 de maio de 2011

Comentários

Há 22 comentários para esta postagem
  1. Jarbas Martins 23 de maio de 2011 9:56

    Fernando, meu virtual amigo, sempresempre admirador teu.

  2. Fernando Monteiro 22 de maio de 2011 22:13

    Jarbas:

    Uma coisa: desde que você passou a colaborar com o SPlural [olhe, estou dizendo sem nenhum querer puxar saco etc] isso aqui melhorou em todos os níveis.
    Parece, até, que você inspira um respeito — justíssimo — que mais ou menos viria a “disciplinar”, junto com as oportunas intervenções do Tácito, aqui este espaço antes meio selvagem, um tanto “Velho Oeste”, no qual eu próprio entrei em algumas “brigas” (?) nas quais não deveria ter entrado, reconheço.
    Mas, passou. Por altura do momento em que chegou Jarbas Martins, com o seu saber, a sua elegância, os seus poemas, as suas brincadeiras gentis, os seus ajustes de opinião etc etc — a coisa aqui se “afinou”, e agora, eu diria, está NO PONTO.
    Eu lhe agradeço por isso, antes de mais nada. E, depois, por ser gentil como vosmicê costuma ser — generosamente gentil — com este seu admirador e amigo.
    Boa semana!
    F.

  3. Jarbas Martins 21 de maio de 2011 21:44

    E finalmente o teu poema, Fernando, que em face dos festejos do teu aniversário (mais que merecidos), ficou esquecido.Um poema citacional.Circunstancial como os que o grande Bandeira (pernambucaníssimo e universal sabia fazer).Os versos de Wordsworth (poeta que conheci, em singelas e esparsas traduções, ainda no ginásio) têm uma tal força épica e lírica que me soaram como os de Whitman.Parabéns pelo aniversário e pelo teu poema.Minha intervenção, naquele momento, pode não ter sido adequada, desculpe-me (desculpe-me também caro Jairo Lima).Mas, apesar de ter um irônico sabor de blague, é verdadeira.Em um modesto livro (inédito) sobre a poesia norte-riograndense, chego a dizer que a insulada e envergonhada literatura potiguar é uma invenção de Cascudo, em uma tarde tediosa na cidadezinha dos inícios do século passado. Pernambuco, onde surgiria o primeiro livro de poesia no Brasil, sempre foi a Estação Central de onde partiam e para onde convergiam as emanações poéticas.A nossa poesia (hoje, talvez se possa falar que ela existe) é pernambucófila.Desde Nísia Floresta até Zila Mamede (talento precoce descoberto por Manuel Bandeira).Henrique Castriciano, antes de ir para Fortaleza, onde graduou-se em Direito, foi discípulo de Martins Jr., o pernambucano que lançou as bases de uma poesia científica.Esse poeta e intelectual poria em prática as idéias efervescentes da chamada Escola do Recife.O que havia de genuíno em nossa recôndita poesia? Ferreira Itajubá, Othoniel Menezes e Jorge Fernandes.Tão pobres, tão verdadeiros em sua arte, e injustamente esquecidos.Houve e há esforços para resgatá-los.Estou entre eles.E só temos a agradecer que poetas como você, como Jairo Lima, e como meu querido Franco Jasiello (tão pouco lembrado), que aqui chegaram e amam esta terra como qualquer nativo, continuem em seu ofício de divulgar a sua obra tão rica, e que só benefícios nos trará, com sua saudável influência forasteira.E basta de xenofobias e etnocentrismos, que não sei se cabem neste mundo multiculturalíssimo em que vivemos.Abraço, meu rico pernambucano.E outro abraço em Jairo Lima, de quem muito gosto e admiro.

  4. Fernando Monteiro 21 de maio de 2011 19:51

    Eu lhe agradeço, Marcos Antonio Lins, embora não me reconheça na largueza estratosférica (se não “kilombólica”) dos seus tão gentis elogios.
    PS:
    E, com toda certeza, não chegarei aos “mil anos” (nem os desejo!). Sequer o III Reich — inicialmente tão poderoso — LÁ chegou…

  5. Marcos Antônio Lins 21 de maio de 2011 14:02

    Eu quero elogiar também. quero elogiar. Fernando o mundo precisa de você. Você é UM DOS MAIS importantes poetas da língua portuguesa. Nunca pare de escrever seus versos que fazem até Akmatova chorar de júbilo. Você. Você, Fernando é o poeta dos poetas. O artista dos artistas. O pernambucano de nosso orgulho. VIVAS para você poeta dos kilombos. UM DOS GRANDES das letras. Mil anos pra você.Sua presença nos ilumina e você nos incentiva a ser melhor.

  6. Fernando Monteiro 21 de maio de 2011 13:45

    “TORCEN” o nariz deve ser mais grave do que TORCEM o nariz, talvez, eu suponho, pelo meu lapso digital-freudiano-nasal como no caso do Juca ChaveZ (ainda tá vivo o paulista-baiano? O chileno não está, obviamente)…

  7. chico m guedes 21 de maio de 2011 11:22

    o aniversário é de Fernando, mas nós todos ganhamos os presentes.
    Nina, só você…

  8. Jairo llima 21 de maio de 2011 10:45

    A (boa) lliteratura acende velo hás com vc.

  9. Fernando Monteiro 21 de maio de 2011 10:25

    Agradeço a todos, com o meu mais fraterno abraço.

    Como é bom ouvir Dylan, Nina! — vindo com o frescor das suas mãos de poeta (ou “poetisa”, pois não sou dos que torcen o nariz para essa velha forma do feminino que lembrava, também, “sacerdotiza”)…

    VOCÊS TÊM O CORAÇÃO BOM — E A MENTE VIVÍSSIMA.

    [CONTINUEM PRODUZINDO!, POR FAVOR]

    Fernando

  10. Anne Guimarâes 20 de maio de 2011 23:45

    Parabéns, Fernando…
    Muita saúde, amor e sucesso em seus sonhos.
    Paz e luz nesse novo ciclo.
    Abraços ternos.
    🙂

  11. Edjane Linhares 20 de maio de 2011 23:31

    Fernando, parabéns. Que o esplendor de sua presença seja eterno.

  12. Roberta Aymar 20 de maio de 2011 23:25

    Aniversário, a data!

    Algumas datas me causam certa estranheza…
    Inquiet’Ação, talvez.

    A “Data de Aniversário” é uma delas, certamente…
    Seja a minha, seja a vossa, seja a nossa.
    São sempre, elas, as mesmas gastas datas de aniversário… Esperadas e previsíveis datas, com prazo de validade de um ano… Acontecendo, invariavelmente, na mesma data, exceto escolham tomar os caminhos da fatalidade indesejada.

    No afã do ritual de passagem da data de aniversário (mente, quem disser que não se lembra do próprio aniversário! MENTE!), um insólito hiato temporal invade-me o silêncio da garganta calejada e não se cala.

    Esse hiato não se sabe hiato de tempo de quando ou hiato de tempo entre o quê.
    E aí segue o seu rumo/(des)’tino, pensando-se linear corolário das coisas que vivem em curso e movimento natural…

    Como o meu “futuro tem um coração antigo”, como disse um dia, poeticamente, o escritor Carlo Levi, desejo-lhe feliz aniversário lhe desejando ao mesmo tempo esse insólito hi’Ato que in-comoda e Acomoda a minha alma e a embutida esperança no futuro de si mesmo – que todos os aniversários contêm.
    Mas, sobretudo, desejo-lhe que esse futuro que se quer sempre próximo ainda guarde o calor da reminiscência de um pretérito.
    Pretérito de alguma felicidade d’outrora jamais esquecida dentro do coração.

    Feliz Aniversário, Fernando!
    (Desculpe-me a ousadia. Apesar de nos conhecermos virtualmente, tenho muito respeito e carinho por você).

    Roberta Aymar.
    20.05.2011.

  13. Danclads Lins de Andrade 20 de maio de 2011 21:35

    Vida longa, poeta!

    Você aniversaria, mas o presente é nosso: este poema.

    Parabéns!

  14. Laurence Bittencourt 20 de maio de 2011 20:33

    Fernando parabéns, você que figura sem nenhuma dúvida, entre os grandes escritores desse país, prosa e poesia.

    Laurence Bittencourt

  15. nina rizzi 20 de maio de 2011 20:10

    *que a “que” LHE cai melhor…

  16. nina rizzi 20 de maio de 2011 20:09

    pensando naquela música “hoje é dia de festa”, com o trovão da elza soares…
    podia te deixar o aniversário de fernando pessoa, mas… acho que este cairá melhor:

    uma palavrinha sobre os fazedores de poemas rápidos e modernos
    Charles Bukowski; trad. Jorge Wanderley

    é muito fácil parecer moderno
    enquanto se é o maior idiota jamais nascido;
    eu sei; eu joguei fora um material horrível
    mas não tão horrível como o que leio nas revistas;
    eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
    que não me deixará fingir que sou
    uma coisa que não sou-
    o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
    na poesia
    e o fracasso de uma pessoa
    na vida.
    e quando você falha na poesia
    você erra a vida,
    e quando você falha na vida
    você nunca nasceu
    não importa o nome que sua mãe lhe deu.
    as arquibancadas estão cheias de mortos
    aclamando um vencedor
    esperando um número que os carregue de volta
    para a vida,
    mas não é tão fácil assim-
    tal como no poema
    se você está morto
    você podia também ser enterrado
    e jogar fora a máquina de escrever
    e parar de se enganar com
    poemas cavalos mulheres a vida:
    você está entulhando a saída- portanto saia logo
    e desista das
    poucas preciosas
    páginas.
    *

    bem, depois desta, só esta, que é a LHE cai melhor:

    POEMA DE OUTUBRO
    Dylan Thomas; trad. Ivan Junqueira

    Era o meu trigésimo ano rumo ao céu
    Quando chegou aos meus ouvidos, vindo do porto
    e do bosque ao lado,
    E da praia empoçada de mexilhões
    E sacralizada pelas garças
    O aceno da manhã

    Com as preces da água e o grito das gralhas e gaivotas
    E o chocar-se dos barcos contra o muro emaranhado de redes
    Para que de súbito
    Me pusesse de pé
    E descortinasse a imóvel cidade adormecida.

    Meu aniversário começou com as aves marinhas
    E os pássaros das árvores aladas esvoaçavam o meu nome
    Sobre as granjas e os cavalos brancos
    E levantei-me
    No chuvoso outono
    E perambulei sem rumo sob o aguaceiro de todos os meus dias.
    A garça e a maré alta mergulhavam quando tomei a estrada
    Acima da divisa
    E as portas da cidade
    Ainda estavam fechadas enquanto o povo despertava.

    Toda uma primavera de cotovias numa nuvem rodopiante
    E os arbustos à beira da estrada transbordante de gorjeios
    De melros e o sol de outubro
    Estival
    Sobre os ombros da colina,
    Eram climas amorosos e houve doces cantores
    Que chegaram de repente na manhã pela qual eu vagava e ouvia
    Como se retorcia a chuva
    O vento soprava frio No bosque ao longe que jazia a meus pés.

    Pálida chuva sobre o porto que encolhia
    E sobre o mar que umedecia a igreja do tamanho de um caracol
    Com seus cornos através da névoa e do castelo
    Encardido como as corujas Mas todos os jardins
    Da primavera e do verão floresciam nos contos fantásticos
    Para além da divisa e sob a nuvem apinhada de cotovias.
    Ali podia eu maravilhar-me
    Meu aniversário Ia adiante mas o tempo girava em derredor.

    Ao girar me afastava do país em júbilo
    E através do ar transfigurado e do céu cujo azul se matizava
    Fluía novamente um prodígio do verão
    Com maçãs
    Pêras e groselhas encarnadas
    E no girar do tempo vi tão claro quanto uma criança
    Aquelas esquecidas manhãs em que o menino passeava com sua mãe Em meio às parábolas
    Da luz solar
    E às lendas da verde capela

    E pêlos campos da infância duas vezes descritos
    Pois suas lágrimas me queimavam as faces e seu coração
    se enternecia em mim.
    Esses eram os bosques e o rio e o mar
    Ali onde um menino
    À escuta
    Do verão dos mortos sussurrava a verdade de seu êxtase
    Às árvores e às pedras e ao peixe na maré.
    E todavia o mistério
    Pulsava vivo Na água e nos pássaros canoros.

    E ali podia eu maravilhar-me com meu aniversário
    Que fugia, enquanto o tempo girava em derredor. Mas a verdadeira
    Alegria da criança há tanto tempo morta cantava
    Ardendo ao sol.
    Era o meu trigésimo ano
    Rumo ao céu que então se imobilizara no meio-dia do verão
    Embora a cidade repousasse lá embaixo coberta de folhas no sangue de outubro.

    Oh, pudesse a verdade de meu coração
    Ser ainda cantada
    Nessa alta colina um ano depois.
    *

    poesia em seus caminhos, sempre.
    um beijo.

  17. carito 20 de maio de 2011 19:28

    Gostei muito do poema! Parabéns pelo seu aniversário! Vida longa ao poeta!

  18. Fernando Monteiro 20 de maio de 2011 19:01

    Obrigado pelo carinho expresso por todos. Um velho poeta amigo meu, daqui do Recife, dizia que era esse o “salário moral da gente”…

  19. Ednar Andrade 20 de maio de 2011 18:23

    Eitcha, que hoje é dia de festa é Fernando?

    Pena que não estejas aqui.

    S’avexe não, dia desses comemoraremos todas as datas que não comemoramos.

    (Brincadeirinha, não s’avexe e no eitcha!)

    Poeta, permita-me uma singela homenagem desta que nem poeta é,mas é de coração que te digo:

    *Todas As Poesias*

    Que o sol te alcance/
    Que da luz do dia nasçam todas as poesias/
    Que o canto dos teus encantos/
    Sejam de euforia/
    E nada além dos teus encantos seja poesia/
    Somente a felicidade possa te encontrar/
    Sem o medo ou a duvida saibas amar/
    O amor te busque/
    Só o amor encontres/
    Só o sorriso seja teu fiel amigo/
    Que a saudade não esqueça de te visitar/
    Pois da saudade/
    Depende o poeta para sonhar/
    Das melodias que o amor cantar/
    Guarda no teu coração os versos/
    Feitos com a ternura dos que sabem amar*/

    (Ednar Andrade).

    Beijos, felicidades Fernando.

  20. chico m guedes 20 de maio de 2011 17:33

    São meus também os votos de Tácito, Fernando. abraço

  21. Jarbas Martins 20 de maio de 2011 15:10

    Um presente pra você, Fernando (dê uma fatia pro Jairo Lima). Vocês, pernambucanos, são os maiores poetas deste Substantivo Plural!!!

  22. Tácito Costa 20 de maio de 2011 15:00

    Fernando, meus parabéns e vida longa, principalmente, para continuar nos brindando com o seu talento e lucidez. Abs.

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