Poema, letra e canção no FLIN

Marina e Cícero pontuam canções como histórias pessoais e a frutífera parceria música e letra

Foto: Alexis Régis

Pretendia falar hoje sobre o tema “Literatura e Erotismo” que me foi proposto para debater por ocasião do Festival Literário de Natal – FLIN – encerrado no sábado passado de maneira apoteótica na nossa combalida, porém ainda esperançosa, Capital. Ocorre que colhi no ar a existência de um fio condutor temático dominante no FLIN e que, consciente ou inconscientemente eleito, permeou os quatro dias do importante evento. Falo da discussão acerca do assunto implícito ou explícito das diferenças e semelhanças, encontros e desencontros entre o poema, a letra e a canção.

Desde o emocionante bate-papo e recital da cantora (e agora escritora) Marina Lima com seu irmão filósofo, escritor, poeta e compositor Antonio Cicero, na quarta-feira de inauguração do festival, passando pela aula-espetáculo de José Miguel Wisnick acerca da obra de Vinicius de Moraes na quinta (com auxílio luxuosíssimo de Vânia Bastos e meramente razoável de Gereba), chegou-se ao apogeu do evento e do debate decisivamente central na mesa capitaneada de forma inédita pelo próprio presidente da FUNCARTE, Dácio Galvão (aliás, esse foi um acontecimento repleto de felizes ineditismos), contando com o múltiplo artista Caetano Veloso no epicentro das atenções, coadjuvado pelo valoroso, competente poeta e dublê de tiete Eucanaã Ferraz. A mesa de Caetano levava justamente o título “A poesia na canção, a canção na poesia” e fecharia acertadamente a temática que predominara no evento.

Se eu já tinha um pensamento amadurecido no sentido de que o poema produzido para o suporte livro é coisa translucidamente distinta da letra produzida para um fundo artístico chamado canção, agora já não possuo mais qualquer dúvida acerca disso. As posições abalizadas de gente do nível de um Antonio Cicero, de um Wisnick e de um Caetano Veloso (“não creio em diferenças, mas que existem…existem”) reforçaram isto. Acredito que nenhum debatedor recalcitrante – mesmo desses que exigem semelhanças radicais e correspondências descabidas entre os gêneros poema e letra – ficou com essa equivocada convicção após ter ouvido essas três figuras que têm um bocado de estrada nesse ofício do poema, da letra e da canção. Ressalvo que não sei se Naná Vasconcelos e Lui Coimbra chegaram a discutir o tema. Não consegui vê-los e ouvi-los em ação no evento.

Ora, evidencia-se que o poema possui estrutura e espírito diferentes da letra de música. A letra pode até ser coincidentemente um poema (basta lembrar que Tom Jobim musicou um ou outro dos sonetos de Vinicius sem mudar uma palavra, por isso mesmo com uma dificuldade danada), mas não sofrerá jamais dessa exigência. Isso não é lei para a canção, que é fundo e é “moldura” e é um terceiro gênero autônomo. Uma vez tive a confirmação disso vindo à realidade de maneira inquestionável quando fiz letras para o CD Cineclube, na boa parceria com o músico Babal Galvão. Percebi que a melodia, a harmonia, o ritmo, enfim a estrutura da canção é o que se faz guia para as palavras nesse tipo de feitura artística. Nunca mais tive qualquer dúvida. O tema, no entanto, permanece ricamente envolto por nuances que sempre merecem debate, como o que maravilhosamente foi produzido no FLIN.

E o que dizer se, depois de presenciar uma série de conversas inteligentes durante a excelente programação, Natal dispunha da especial possibilidade de receber um “Abraçaço” de Caetano na Praça Augusto Severo? Mais nada! Nadinha! Até mesmo porque Caetano deixou suspenso todo esse debate – “este segredo guardado bem lá no fundo do peito” (lembro a canção “Gayana”) – e nos mostrou visceralmente o que faz um artista pleno no alto dos seus 70 anos embebidos em arte poética. Meu desejo é de que o FLIN se mantenha e se aperfeiçoe com força total, nos permitindo outros momentos como esses.
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Texto também publicado no jornal Tribuna do Norte

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Tácito Costa
    Tácito Costa 12 de Novembro de 2013 16:21

    Lívio, as falas deixaram claro que letra de canção e poema são coisas distintas. Quem ainda tinha dúvida, agora não tem mais – rs. A questão não foi tratada por Naná e Lui, que também fizeram um belo show.

  2. Lívio Oliveira 12 de Novembro de 2013 17:57

    Valeu, Tácito, pela informação.

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