Poema para minha mãe

Por Juliana Ribeiro Dantas

Ela disse:

-Hoje encerro o tempo da poesia.

Mas a poesia é ciclo vicioso

é rio e não para de correr.

 

Ela insiste em fechar as janelas

porém a luz do corredor estará sempre acesa

como as vozes das crianças, as cantigas e brincadeiras sem fim…

O tempo das dores chegou mais cedo,

Maria, poderia perguntar pela rosa

ela não gosta de rosas

só se estiverem bem plantadas no jardim.

 

O jardim

é quase escasso

mas há um banco de praça com pau-brasil sombreando.

Enquanto houver praça, banco, vasos…

haverá semente para fomentar versos.

 

Alguém falará das doenças

você esconderá as suas

e as meninas bagunçam e agitam os ventos.

 

Os verbos se confundem

pretérito perfeito, imperfeito

tanto faz

temos o futuro do presente –dedilhando-

e ele se fia com palavras

mesmo que desfiemos em lama de várzea

mesmo que a dureza da vida coloque pedras

sobre o colorido dos fonemas.

 

Não é possível enterrar a vida

sepultamos apenas o que morre

e até a morte em nós renasce.

Comments

There are 10 comments for this article
  1. eduardo gosson 22 de Novembro de 2013 6:44

    Belíssimo poema, querida! Você colocou as palavras certas nos lugares certos.

  2. Marcos Silva 22 de Novembro de 2013 9:16

    Juliana, fiquei muito impressionado com o tom sóbrio de uma tristeza que não esquece o que há de belo na vida. Não é fácil atingir esse equilíbrio entre tema, vocabulário, núcleos de argumentação. Gostaria de ler mais coisas suas, saber mais de você como escritora. Gosson tem razão quanto à escolha e distribuição das palavras.

  3. Ednar Andrade 22 de Novembro de 2013 10:51

    Ela disse:
    -Hoje encerro o tempo da poesia.
    Mas a poesia é ciclo vicioso
    é rio e não para de correr.

    Não é possível enterrar a vida
    sepultamos apenas o que morre
    e até a morte em nós renasce.

    * A carne se vai,passa, a poesia jamais.E isto é infinto e belo.

  4. anchella monte 23 de Novembro de 2013 20:05

    Oi, Marcos Silva!
    Juliana estudou Letras e agora é mestranda em literatura comparada; Manoel Bandeira é seu objeto de estudo. Escreve poemas há um bom tempo, já tendo recebido duas menções honrosas em concursos. Gosto muito do que ela escreve (e não por ser minha filha). Espero que comece a organizar os seus escritos, a tendência é vir algum dia a transformá-los em livro. No momento, só pensa em Bandeira e na dissertação. E deu uma “bronca” poética na mãe, que pensa em parar de escrever. Abraço.

  5. Lívio Oliveira 23 de Novembro de 2013 20:27

    Eis um poema que me chamou atenção. Algo forte está guardado aí e no porvir.

  6. Suely Nobre 23 de Novembro de 2013 20:38

    Juliana, parabéns! Quanta poesia!
    Eu acrescentaria às observações de Eduardo Gosson q você impregnou às palavras um sentimento preciso, cortante.
    Onde eu me refugio em busca de silêncio e quietude existe um banco de pedra ladeado por um pau-brasil belíssimo, em plena juventude, que a partir dessa leitura ganhou ainda mais significado.
    Veja só! Apesar de sombrio, o poema, pela sua beleza transmite-nos boas sensações.

  7. Anchieta Rolim 24 de Novembro de 2013 2:53

    Ju, que coisa linda esse seu poema. Parabéns! Um beijão bem grandão no coração!

  8. anchella monte 24 de Novembro de 2013 16:03

    Na minha mensagem a Marcos Silva, escrevi Manoel, mas é Manuel. O Bandeira é Manuel, o de Barros Manoel.

  9. Juliana 25 de Novembro de 2013 0:19

    Muito obrigada pelos comentários! Fiquei bastante emocionada. Como minha mãe disse, eu estudo literatura, mas escrever poesia não é algo constante para mim. Mas de vez em quando acontece. Estudar Manuel Bandeira tem me tornado mais observadora em relação ao cotidiano, a vida e a morte. A sua delicadeza nos desperta a sensibilidade para as construções simples da vida. E precisava ‘puxar as orelhas’ de mainha que sabe lidar tão bem com as palvras, porém pretende enterrá-las.

    Tenho um blog, mas não sou muito assídua. Eis o link: http://aperitivopoetico.blogspot.com.br/

    Imensamente grata pelas palavras.

    Juliana.

  10. Juliana 25 de Novembro de 2013 11:43

    * à vida e à morte

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