[POESIA] “a janela calcifica a paisagem”, de Ayrton Alves Badriah

a janela calcifica a paisagem

nos sacos de cimento

que fazem as costas dos homens

na fuligem que faz os dedos dos homens

nos seus dedos, de homem, que talvez na leveza de minha pele façam o amor e o assombro do amor. dezembro é tempo de tirar as cortinas das janelas, de lavá-las com afinco, de deixá-las bem limpas para esperar algo que ainda não sei. leio das memórias de adriano o amor e o assombro do amor e fico pensando em qual praça romana, em qual busto ficou preso o meu rosto, sob quais vagas letras? a fuligem que faz os dedos dos homens vem desse tempo, a fuligem da qual os homens se despem antes de se deitarem comigo e depois dela se vestem para partirem e me deixarem ainda dentro da penugem do meu sono. foi numa segunda-feira onde o longe ficou mais longe. foi numa segunda-feira que eu envelheci, e meu corpo ainda não sabe como se retorcer, ainda não sabe como se enrugar e balançar uma pele que levemente, de mim, se desprende. uma pele quase gasta de uma fuligem quase intacta. uma pele quase pó, quase gaivota, quase âncora. em Roma. em Roma eu não tinha nome e amava você. você que existe e não tem nome. sobrevivo de palavras cristalizadas ao contrário.  eu que vivi em Roma e nunca lá estive. sobrevida em Roma. sobrevida em palíndromos. não sobrevivi ao seu contrário desconhecido. eu, igualmente cristalizado ao contrário num horizonte espesso. seus dedos me ensinaram do chumbo a frieza e o peso, em noites densas, seus dedos que não eram seus dedos porque deles outros dedos se revestem, e nada deles aprendo porque não abro a porta. seus dedos, onde você entra como um caracol que se assusta com meus olhos, pesam num vago, num indefinido, ainda que nada saibam do chumbo que reveste os meus milênios. do labirinto de pedra que é o meu cérebro. da pele em estado de película de dor. fico aqui, deste lado da janela, ainda sem cortinas porque não findou-se dezembro, vendo meu corpo sendo carregado por cima dos sacos de cimento, num horizonte espesso, meu corpo de chumbo sobre os sacos de cimento sobre as costas dos homens que caem ao receberem meu corpo de chumbo sob a iluminação que atravessa as copas das árvores, vinda desde Roma, onde eu não tinha nome, para descansar em meus olhos, deste lado da janela, onde eu ainda não tenho nome e sobrevivo vendo outros que morrem ao me carregarem do outro lado da janela que calcifica a paisagem e os seus pés a quilômetros de anos de mim.

Fotografia: “Vista do teatro grego de Taormina, Itália”, de Wilhelm Von Gloeden

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