E a poesia chegou lá

A eleição do poeta Jarbas Martins à Academia Norte-riograndense de Letras é um raro pico de lucidez na instituição tantas vezes consagradora de métodos e nomes que enxovalham a literatura. A obra dele está entre o melhor que se produziu, a partir dos anos 1960, nesta terra de muitos poemas e pouca poesia, poucos poetas e muitos poetastros. É impossível elaborar uma antologia definitiva da poesia potiguar sem incluir o díptico “Ad perpetuam rei memoriam”, um poema em que as mazelas do Potengi fluem por versos que cumprem um programa estético completo: fazem pensar, emocionam e, ao leitor-poeta, suscitam (inspiram, já que estamos na academia) derivações.

Entre tantos escribas melequentos, Jarbas é um que tira ouro do nariz. Sua poesia deveria repercutir muito além do gueto em que é consumida como biscoito fino. A alusão a Oswald de Andrade não é gratuita. Ele é uma das matrizes formais da poética de Jarbas, baseada, como a do próprio palhaço da burguesia, na expressão coloquial da in/formação erudita. Mas, mesmo o que parece simples e fácil, é resultado de muito trabalho com a palavra e de uma concepção de poesia em que a grandeza não está na quantidade de versos, mas na força concentrada do que/como eles dizem. Sem o automatismo do poema-piada ou a pobreza do trocadilho que se pretende poesia apenas porque tem as linhas quebradas à maneira de versos.

Como exemplo, tome-se o último livro de Jarbas – “43 Haikais”–, em que o recurso à forma oriental cristaliza a busca por concisão e brevidade latente na obra do poeta, minimalista até no número de livros publicados. Outra evidência é o interesse pelo soneto, como poeta e como crítico. A camisa de força da forma impõe ao autor a necessidade de domínio técnico e concisão para escapar do palavreado sem peias, do lirismo verborrágico que não cabe em si nem em meros 14 versos.

A poesia de Jarbas é também política, embora sem carteirinha de partido, jargão de assembleia ou selo de estética engajada. Sua formação de esquerda inocula muitos de seus poemas com certa carga de testemunho social, vivido ou apreendido. Mas eles são militantes da palavra como instância de liberdade estética e da arte como uma forma de compromisso moral. Sem perderem o pique poético ou se reduzirem a um breviário de clichês que animem saraus e sessões de massagens do ego em redes sociais, essa nova forma de academia: posto, logo poeto.

É ingenuidade conceber a academia como representação real da excelência nas letras de um lugar e de um período, com uma diversidade que abrangeria o melhor da literatura e das formas conexas (o jornalismo, a crítica, a biografia, as memórias, a história e o etc. da outra academia). A pretensão pluralista nunca garantiu imortalidade apenas aos craques nos respectivos campos. Ela acabou por gerar complacência com mecanismos de escolha que têm tudo a ver com a política (literária ou partidária) e nada com a qualidade da obra sagrada.

O desvirtuamento explica tanto a aversão quanto a cobiça de muitos escritores pela glória acadêmica. Por isso, a eleição de Jarbas Martins é um surpreendente ponto fora da curva. Oxalá seja um sinal de que, contra todas as evidências, a academia começa a imortalizar também os nossos grandes poetas.

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. Tamara 24 de dezembro de 2015 9:20

    Texto a altura dos ‘escritos’ de Jarbas.
    A academia ganha um grande poeta, finalmente!

  2. edjane linhares 18 de dezembro de 2015 15:38

    Parabens, Jarbas! Em alerta (procura) na leitura indicada por Adriano. Abs.

  3. José Saddock 18 de dezembro de 2015 10:54

    Um SER TÃO imortal – um quase nada de luar no mármore líquido da eternidade.Parabéns JARBAS MARTINS!

  4. thiago gonzaga 17 de dezembro de 2015 19:31

    Parabéns aos dois.
    Para Adriano de Sousa pelo excelente texto, e para o mestre Jarbas Martins pela vitoria justa.(a literatura potiguar quem ganha).
    Agora, vou ficar na torcida pela entrada de Lívio Oliveira, Humberto Hermenegildo de Araújo, Marize Castro, Woden Madruga e mais um ou dois nomes, sobretudo, da literatura
    Daí já posso morrer em paz. rsrs
    (vou ficar na torcida).

  5. Anchieta Rolim 17 de dezembro de 2015 17:42

    Valeu, Che! A cadeira merecidamente é sua… Meus parabéns!

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