Poesia cinematográfica musicada

O cinema nunca foi totalmente mudo. Que o diga as trilhas sonoras dos clássicos de Charles Chaplin. E nessa relação entre som e imagem, o cinema produziu uma coleção de músicas, personagens e diretores convencionalmente chamados de a sétima arte. Esta história centenária está embutida no Cd Cineclube. Ou pelo menos o que coube do imaginário poético de Lívio Oliveira e da inspiração melódica de Babal. São 13 poesias musicadas voltadas à história do cinema. O produto de três anos de trabalho será lançado nesta quinta-feira, às 19h, na Capitania das Artes.

O Cd traz a participação de algumas das nossas melhores intérpretes – Valéria Oliveira, Khrystal, Luciane Antunes e Liz Rosa – mais a canja do paraibano Geraldo Azevedo. Em essência, as canções recebem arranjos jazzísticos, sob direção do experiente Joca Costa e amparo de uma quase orquestra sinfônica. É um trabalho ousado. Não só pela mescla de poesia, música e cinema. É também a união entre o exaurido dilema de unir o universal ao local. O próprio Lívio Oliveira explica a intenção em retratar reminiscências das velhas salas de cinema de Natal.

Se cada canção homenageia grandes mestres e divas do cinema, como o espanhol Pedro Almodóvar, Federico Fellini ou Marilyn Monroe, também rende loas aos cineastas potiguares Buca Dantas e Jussara Queiroz, na música Na Sala do Royal Cinema. Nos créditos da contracapa, nomes como Moacy Cirne, Anchieta Fernandes, Willian Cobbett, Valério de Andrade, Djacir Dantas e Edmar Viana (em memória), um dos incentivadores quanto ao patrocínio do projeto, financiado pela Lei Câmara Cascudo de Incentivo à Cultura, em parceria com a Cosern.

A homenagem de Babal lembra o tio-avô Zé Perninha, dono do Cinema São Sebastião, na alecrinense Avenida 10, quando assistia a filmes e seriados na cabine de projeção, em clara alusão ao clássico Cinema Paradiso. Na canção homônima ao título do Cd, Cineclube, outras citações de obras cinematográficas históricas na letra (ver ao lado). E mais do que títulos de filmes, a voz das intérpretes convidadas rememora as divas do cinema, em combinação com os arranjos em tons clássicos, mesclados à música flamenca (Chinatown), ou à américa espanhola de Almodóvar.

COMPOSIÇÕES
A feitura do Cd foi lenta e minuciosa. Afinal, como o próprio Babal atesta, não é fácil estabelecer parcerias musicais com poetas. “Há poemas musicáveis e outros não. Escrever poesia é impulsão. Não significa que a métrica das estrofes sirva para a música”. E cita o exemplo da poesia portuguesa de Fernando Pessoa, metrificada e rimada, ou as músicas de Chico Buarque como de fácil encaixe em melodias. “São poesias qualificadas à literatura e à musica”. E a harmonia entre música da letra é claramente perceptível nas composições do Cd Cineclube, elaboradas em processos diferentes de composição.

Ora as letras eram enviadas por Lívio ao e-mail de Babal, ora o músico dava um sinal melódico para o poeta encaixar a letra, ora eram construídas juntas. Em comum apenas a idéia de incorporar a temática do cinema nas letras. As participações também foram convidadas sob criteriosa escolha. “Quando comentei do trabalho a Geraldo Azevedo ele sequer procurou saber qual a música e disse: ‘Canto o que quiser’”, lembra Babal. A canção que coube a Geraldo – As Mulheres da Cidade – homenageia Fellini, diretor preferido de Lívio Oliveira, e diz: “Quantas vezes Giulietta?/ Quantas vezes só?/ Quantos trens peguei na vida?/ Nessa doce vida.”.

Em Sem Destino, também são incluídos os ídolos musicais retratos de uma geração, Janis Joplin e Jim Morrisson. “Quis estampar o espírito dos anos 60”, explica Lívio. O título da canção é também de uma adaptação cinematográfica do épico romance do vencedor do Prêmio Nobel da Literatura, Imre Kértész. Em Chinatown, na primorosa interpretação de Luciane Antunes, a própria sonoridade do título remeteu à atmosfera de Natal, em metalingüística bem apropriada. Na última faixa, Epílogo, homenagem inusitada aos diretores que namoraram atrizes dos seus filmes, como Woody Allen, Bergman e Arnaldo Jabor.

LANÇAMENTO
Durante a solenidade de lançamento de Cineclube na Capitania das Artes, será montado palco aberto para apresentação de três ou quatro músicas do álbum, enquanto clipes das músicas interpretadas por Valéria Oliveira (Vamos Pegar Uma Tela), Khrystal (Ruas e Luzes) e Liz Rosa (Perdão) em estúdio serão exibidos. Segundo Babal, devido aos arranjos orquestrados sofisticados empregados nas composições, algumas delas sofrerão adaptações para apresentações ao vivo em seus shows. A solenidade é aberta ao público.

Cineclube
(Lívio Oliveira / Babal)

No tempo das diligências
Eu perdi minha inocência
E passei a te entender
A menina afamada
Que era a menina do lado
A quem quis enternecer

Mas, hoje amor,
Sam já não toca mais
Casablanca está lá atrás
E o sonho é mais brando
E de teu último tango
Já não sou mais o ator.

E a cena lá na tela
Fez a vida bem mais bela
Logo depois do jantar
Quando nós dois no cinema
No amor que era o tema
Que ajudava a acarinhar.

Mas, hoje amor…

O truque mais inocente
No meio de tanta gente
Era eu te bolinar
E a cada teu sorriso
O cinema em Paradiso
E a sessão me inflamar

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

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