A poesia de Diego Moraes: um urso que urra

Li o novo livro “Um bar fecha dentro da gente” (Ed. Douda Correria), do poeta amazonense Diego Moraes, acompanhado de um sentimento misto de deslumbramento e choque. Aviso que é importante para os seus novos leitores que se acautelem antes da leitura, para não virem depois se colocar como desavisados das pancadas verbais que levaram. O livro é “pancada” mesmo, no melhor sentido. E é delicioso. Uma delícia dentro do féu, do éter, álcool e outras muitas substâncias. A principal? POESIA. Poesia puríssima, urros e bramidos do Urso (apelido do poeta).

De antemão, vejo que estou diante de um poeta hiper-sensível, um poeta que busca e consegue extrair beleza das coisas mais sujas da vida, da desgraça que em tudo é latente, do trágico, dor e ausência e solidão. E é um poeta forte, com poesia contundente, que mostra a beleza, mas que esfrega a revolta na cara do leitor, que a merece e dela deve tirar o proveito e o sentido estético. Se quiser, também ético.

O livro de Diego pode ser lido de trás-pra-frente e de frente-pra-trás. É cheio de verdades e de aforismos poéticos. Doceamargas constatações: “O peito do poeta/É uma cidade cheia/De amores suspeitos.” A revelação do título está aqui, por exemplo: “Quando/Um amigo morre/Parece que um bar/Fecha dentro da gente”. E ele já explica o que busca e o que encontra: “Quero escrever coisas lindas/mas tem um guindaste/pregado na estrada do meu peito.”

Diego nos põe de pé diante da tragicidade do mundo, nada ocultando, mantendo firme o passo e a coragem de nos dizer tudo que lhe vem das vísceras. Diego é, sim, um poeta visceral, como poucos: “Solidão,/Esse cheiro de boceta/Lavada com sabonete Dove/Impregnado no lençol da cama de solteiro”. Nunca (ou)vi ninguém falar de amor com tanta propriedade, Diego! Diego fala e fala muito mais: “Meu coração feito porto de navios naufragados/Agora eu sou um neanderthal fazendo pinturas rupestres no abandono/Um bicho escrevendo poemas para ninguém.” Poemas duros, mas que contêm certa doçura. Diego também sabe ser doce, por incrível que pareça. Estranhamente doce: “acaba o amor/e fica aquele chevette/com prego de gasolina/congestionando/a principal avenida/do coração.”

Pancada! Pancada! Diego continua na sua marcha insana e bizarra em prol da beleza arrancada da pedra bruta. Leia mais esses versos aforísticos em linguagem estético-coloquial: “O amor não existe/O amor é uma disciplina do curso de agronomia.” Ou esses: “(…) Já se passaram dez anos/Os poemas que escrevi quando gozava nos teus peitos de atriz da/nouvelle vague incorporada de pomba-gira amarelaram como sífilis/na fruteira. (…) Já se passaram dez anos/Mas o cheiro da sua boceta ainda está impregnado no quarto, no guarda-roupa, na cozinha, na varanda, nas estrelas.” E mais alguns: “Meu cão sem pedigree recusando nova ração/Meus primeiros fios de cabelo branco/Minha mãe reclamando por não ter netos/As camisetas M que ficaram curtas/A lista de legumes da dieta/Meus novos amigos desconhecidos no facebook/Minha ex-namorada que perdeu a perna num acidente de motocicleta.”

Diante desses versos terrivelmente belos, somente lhes digo, leitores não-mais-desavisados, que não adentrem o templo poético-niilista de Diego com seus pés sujos da frescura e do falso pudor e mesmice que alimentam alguns humanos. Entrem com a cara e a coragem e os culhões. Somente a partir daí terão a paz contraditória e despedaçada do poeta ultra-humano, radicalmente poeta, Diego Moraes.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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