Poesia de Iracema desafia a penúria dos dias

Houve um tempo em que os poetas eram tidos como seres nefelibatas (“habitantes das nuvens”, ou cegos, como Homero. Hoje, preferem se ver como habitando as palavras. “Morar entre nuvens” foi a forma que encontraram para expressar o mal-estar que lhes causava habitar um mundo árido e hostil; morar em meio às palavras é o socorro que resta quando alguém se vê na condição de um apátrida, despojado de qualquer lugar que reconheça como seu.

A sentença foi formulada por Adorno: “Para quem não tem pátria, talvez escrever seja a única morada”. Ao lê-la em suas leituras filosóficas, a poetisa e também filósofa Iracema Macedo encontrou sua estrada real. É o que expressa no poema “Raízes”, cujo quarto verso diz: “Estou morando em minhas palavras”. Prosseguindo, conclui: “Às vezes sede, às vezes navalha/ às vezes também girassóis e asas”. A “lucidez de navalha”, de que fala Diulinda Garcia em livro recente, é um bom exemplo do que pode a poesia quando empunhada como instrumento cortante; a alegoria das asas é autoexplicativa.

“Raízes” integra a parte inédita do livro “Poemas inéditos e outros escolhidos”, que Iracema Macedo lançou em dezembro último com selo do sebo Vermelho e orelhas de Nei Leandro de Castro, leitor, aliás, entusiasta da poetisa, “entre as melhores. Talvez a que mais abre as comportas da paixão, do amor à fatalidade, do amor que fulgura sem aviso”.

Não mais do que dezesseis poemas inéditos compõem esse novo livro de Iracema, sendo os demais retirados de “Lance de Dardos” (2000) e “Invenção de Eurídice” (2004). A rigor, a parte inédita seria quinze, de vez que o poema “Os Passos” (Les Pas), de Paul Valéry, foi publicado na nossa “Antologia Poética de Tradutores Norte-rio-grandenses” (UFRN, 2008), em acerto com a tradutora.

Vive a poetisa uma fase de “baixa” em sua poesia, como às vezes sucede inclusive com romancistas e contistas, haja vista que seu último livro de poesia data de 2004? Quem sabe, outras atividades intelectuais e profissionais não lhe vêm deixando o tempo de ócio que todo criador precisa para produzir? Seria falta de motivação para escrever, dando razão, de certo modo, à indagação formulada por Fernando Monteiro em recente poema longa: “Dá para ser poeta em tempos de penúria?”, repercutindo uma das últimas falas do poeta Roberto Piva.

A resposta de Iracema Macedo a essa questão seguiria possivelmente o método utilizado por Monteiro para abordar a penúria dos tempos que seguem: escrevendo um novo poema, porque ser poeta também é se questionar o próprio ser da poesia, e se há penúria nessa seara, cabe ao poeta usá-la com grande comedimento na moldura da sua poesia. Talvez por isso Iracema Macedo viva uma fase tão — poeticamente — econômica.

Em compensação, nesses poucos poemas inéditos Iracema revela grande zelo pelo estilo que a transformou num exemplo poético: a naturalidade com que desnuda seu próprio eu em versos, seguindo o voo sinuoso das paixões que se acumulam, se desfazem e se renovam.

Trata-se de um método poético positivo porque, conforme leem seus poemas, há um nexo inextricável que os unem, que percorre todo o espectro de possibilidades que relaciona vida, paixão e poesia. Esse nexo se manifesta pela ideia de uma intensa vivência interior. É nele, às vezes mediante um olhar retrospectivo para o vivido, que Iracema busca os motivos dos seus poemas. Que importa que ao leitor sejam dados apenas fragmentos da paixão que os animam? É próprio dos poetas guardarem segredos, mesmo quando parecem despojados das vestimentas mínimas. Assim, ao contrário do rei da fábula de Andersen, às vezes os poetas parecem nus quando, na verdade, se ocultam por trás do excesso de confidências de que falam seus versos; tão cabalmente ricos que ofuscam a penúria do mundo.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

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  1. Lívio Oliveira 27 de janeiro de 2011 9:12

    Iracema.
    América.

    “É próprio dos poetas guardarem segredos (…).”

    Vê-se que Nelson também poetiza!

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