Poesia e dor em “Tudo que tenho levo comigo”, de Herta Müller

“No campo de trabalho aprendemos a lidar com os mortos sem horrorizar-nos. Nós os desvestimos antes que endureçam: precisamos de suas roupas para não morrer de frio. E comemos o pão que eles haviam economizado.”
 (Em “Tudo que tenho levo comigo”. Herta Müller)

Da Nobel Herta Müller eu já tinha lido o romance “O compromisso” e os ensaios de “O rei faz vénia e mata”, ambos abordando a vida sob o regime totalitário do ditador romeno Nicolae Ceausescu. Toda a literatura da escritora é voltada para os abismos do terror de Estado e das ditaduras. Mas nenhum dos dois se compara com “Tudo que tenho levo comigo”.

A obra é baseada na história do amigo e poeta romeno Oscar Pastior (no livro, Leopold Auberg), que em 1945, aos 17 anos, junto com milhares de compatriotas (minoria étnica de origem alemã que morava na Romênia) é deportado por Stálin para um campo de trabalhos forçados, o gulag de Nowo-Gorlowka, na Ucrânia. A Romênia havia apoiado Hitler nos primeiros anos da guerra. Ao final do conflito, como punição, a União Soviética recrutou-os para “reconstruir” o país.

O romance deveria ter sido escrito a quatro mãos, por Herta e Pastior, mas a morte dele, em 2006, aos 78 anos, fez com que ela levasse o projeto sozinha.  Para isso, foram essenciais o que o poeta já tinha escrito sobre sua experiência no Gulag e depoimentos de pessoas que tiveram o mesmo destino, recolhidos por ambos.

Entre os romenos esse período histórico, que coincide com o apoio ao nazismo e os campos de trabalho na URSS, era tabu. A mãe de Herta Müller, como Oscar Pastior, passou cinco anos em um desses campos, muito parecidos com os campos nazistas destinados aos judeus. Mas como relata a escritora em entrevista (link no final), a mãe “só contava esses episódios de maneira muito vaga”.

Trata-se de um livro de muitos méritos. Mas duas coisas me chamaram mais atenção: as condições de trabalho abjetas, o sofrimento humano e a repressão no campo de trabalho;  a narrativa dolorosa, construída com uma escrita altamente poética, seca e pungente. Aparentemente algo impossível descrever o mal, o horror com uma linguagem que beira o lírico. Os capítulos são curtos, mais parecem contos encadeados. Frases também curtas, secas.

Eu ainda não tinha lido um romance com uma carga de violência tão grande contra seres humanos. Mas sei que tem alguns na mesma linha, como os de Alexandre Soljenitsin, que por sinal também retratam os abusos da ditadura comunista soviética (Arquipélago Gulag e Um Dia na vida de Ivan Denisovich).

É quase inacreditável o que Leo Auberg e os compatriotas passam na Ucrânia. No campo, ele convive com a fome (“E a minha relação com o mundo se dá através da comida”. ), trabalhos forçados, doenças, solidão e morte. Muitos não suportaram e morreram.

“Eu sei que você vai voltar”, diz a avó de Leo, na noite em que ele é obrigado a deixar sua casa. Essa frase talvez tenha sido o que o levou a suportar tudo.  Para tornar ainda mais complicada a situação, ele teve de esconder sua homossexualidade, que caso viesse a ser descoberta significaria a morte certa.

Após cinco anos o poeta volta para casa. Mas o campo marcou-o e deixou sequelas insuperáveis, tornando-o inadaptado e exilado em sua própria casa e país.

Nessa entrevista Herta fala sobre sua literatura:
AQUI

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