Poesia e alegria

Por José Castello
O Globo

Uma poesia que dança. Uma poesia

que coloca o jogo divertido

das palavras acima do protocolo

dos significados. Uma

poesia nômade, ambulante,

que passeia por vários mundos.

Eis a poesia de Luis Turiba, de quem leio

“Qtais” (7 Letras). Antes de tudo, o império dos

sons, como em “Ser minério é coisa sério”, poema

em homenagem a Minas e aos mineiros. Antes

de qualquer coisa, a busca do novo: “caminhar

é pisar chão/ sem pisá-lo de antemão”. O

poeta é um caminhante — é uma espécie de ambulante

que avança apoiado em seu cajado. Um

poeta libertário, cujo cajado (a língua?) dele

também se desvia. “Meu cajado é libertário/ temos

quase a mesma altura/ caminhando em paralelo/

olhando o mundo às avessas”.

 

Avançam os dois, “plugados à lei do impulso”,

em uma grande aventura zen. Vão aos tropeções,

mas deles, em vez de tirar dores, tiram lições.

O poeta caminha contra a lógica: “A lógica

dos lógicos já não me interessa/ (…)/ Meu tempo

está no vento peso q não pesa”. Avança sem

uma bússola, parece um sonâmbulo, Turiba nos

faz ver. “Sou cego e calado e escrevo ensimesmado”,

define-se. Ainda assim, cultiva uma intensa

luz interior. Diz a si mesmo: “Não apague a luz

interna e intensifique-se”. Sem direção, resta-lhe

a própria força para construir seu caminho: “levo-

me leve em voos sem lei/ meu fio terra é madeira

de fibra/ sou andarilho”. Carrega um cajado

“alado e desconfiado” e assim privilegia a leveza,

os voos e os grandes saltos. “Um fariseu

distraído/ afável & aviolado”.

 

Muitas vezes ligamos a poesia ao peso, à densidade,

ao sofrimento — mas é contra essas relações

difíceis que Luis Turiba escreve. É um poeta que

escreve, antes de tudo, para se divertir. A poesia

como brincadeira, como dança sem método e

sem partitura, como improviso. Assim Turiba

brinca enquanto faz poesia, e nós, seus leitores,

nos deliciamos. Vai buscar seus materiais nos cantos

mais remotos — como em “O que é o sol?”, segundo

ele escrito “a partir de um poema oral búlgaro

do século V”. Verdade? Mentira? E isso importa?

Interessa sim a distância que o poeta toma para desenrolar

seus versos. Para erguer-se em seu tapete

voador. Faz uma poesia que voa, mas que é também

uma poesia andante, que rasteja, que cheira o chão

e suas brechas. Seja como for, escreve uma poesia

que canta. Importante definir o

que faz? Não parece. “Ainda não

aprendi teu nome/ Mas já sei

(quase) tudo sobre”, ele diz, descortinando

uma resposta.

 

Busca um verso “arrítmico”, aos

soluços, aos impulsos. “Quisera

fazer um verso/ com a sublime

arritmia do amor/ um verso míssil/

neurastênico e febril/ ar do

dia anterior à criação do universo”.

Destino dos poetas, não só de

Turiba: estar às voltas com as origens.

“Um verso de trivela/ transverso e subversivo”,

prossegue em seu sonho. “Um verso de fogo e batom/

histórico, histérico e erudito”. Origem (fogo) e

beleza (batom) se misturam para anunciar uma estratégia

que o traz de muito longe e leva para mais

distante ainda. Matéria da poesia: o tempo, que nas

mãos de Turiba se converte em um material maleável

e perigosamente desdobrável.

 

Uma poesia na qual as identidades se misturam

e é assim que se aproximam, como está dito:

“quem manda em mim/ sou ela”. Poesia da mistura,

mas também da confluência e do diálogo feliz

entre as palavras. Nos versos elas encontram seu

lugar de honra, encontram provavelmente seu

berço. Por exemplo, quando Turiba

brinca assim: “caramba/ carambolas/

sou de jambo/ não

me amora”. Uma escrita contra o

senso, uma escrita de contrassensos:

“agnóstico/ benzo-me

ao olhar o Cristo Redentor”. Exatamente

como somos, seres de

contradição e de desmentidos,

seres instáveis, de pequenas demências,

dos quais a poesia é a

língua mais exemplar.

 

Há nela um gosto não só pelos

sons, mas pela desafinação. O poeta relata: “Mas

cuíca também falha/ Em plena Sapucaí/ Quebra a

vara, rompe o couro/ Desarma o circo e o estilo”. A

desafinação como uma nova maneira de os sons

se encontrarem e se desencontrarem. Como uma

outra arritmia, que perde o prumo, mas não deixa

de avançar. O poeta, precavido, multiplica seus

instrumentos. “Por isso, digo em sigilo:/ Tenho

duas cuícas/ Florença e Nikita”. Iguais, mas diferentes

— e é dessa diferença que vem a desafinação

inevitável e original. “Enquanto Florença

aflora/ Nikita quica/ E assim floreiam o mundo/

Desafinadas as cuícas”. Também a desarmonia

tem seu valor. Também o desajuste é promotor

de beleza, o poeta nos leva a ver. O mundo não é

uma orquestra afinada e impecável; ao contrário,

é um grande sopro de desencontros, e muita beleza

sai disso.

 

Um poeta, portanto, que desconfia das excessivas

habilidades. E que privilegia as diferenças.

Por exemplo, a estranheza que ele encontra nas

girafas. “ouvi dizer que elas dormem/ dez minutos

a cada hora/ também pudera, natureza mátria/

com aqueles pescoços quilométricos/ (que

um dia hei de beijá-los)/ um cochilo faz descansá-

los”. Girafas: exceções em um mundo de exceções,

e eis aí a origem da poesia. Nesses desencontros,

nesses desalinhamentos. Em um poema

como “Língua à brasileira”, Turiba evoca Caetano

Veloso, José Saramago, Guimarães Rosa, os irmãos

Campos, tornando difícil que o leitor vislumbre

uma ascendência nítida para sua poética.

 

Poeta da mistura, Turiba louva seus vários caminhos,

que volta a percorrer como um ermitão

em busca do próprio nascimento.

Aprecia o indecifrável, o vago, aquilo que causa

medo — tudo que os poetas de gabinete veriam

como obstáculo e atrito, ele enxerga como impulso

e leveza. Sabe que “dos signos, a linguagem é a

mais subversiva”. Por isso não se interessa em organizar

o desorganizado, ou em hierarquizar o

que não tem posição fixa. Não: Turiba é um poeta

em que a alegria de escrever (viver) serve de combustível

primeiro. Escreve “por escrever”, e por isso

é tão dono de sua escrita, ainda que ela lhe fuja a

cada verso, ainda que lhe dê rasteiras e subverta

sua própria palavra. As palavras se impõem, e Luis

Turiba sabe ouvi-las. Vê Exu (perigo, mas energia)

“até nas lesmas/ do mago Manoel de Barros”. Exu,

anjo das manhas, em torno de quem o poeta se

contorce para escrever.

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