Poesia é co(r)po que transborda

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões. (Caetano Veloso)

O fazimento poético já é, em si, uma atitude erótica, um envolvimento amoroso que se pressupõe com a língua e com a linguagem. A poesia já busca, em si, o desvelamento, a revelação da própria beleza, do prazer, da sensualidade. Impossível criar a poesia sem que se dê a apreensão e envolvimento erótico com a palavra e com o belo. O poeta cumpre, assim, um papel e um rito que se elabora ao longo de um transe inapelavelmente orgástico. A essencialidade dessa relação, desse mimetismo transbordante entre a arte e o artista (a palavra e o corpo da palavra) revela a mais intensa e verdadeira pulsão de Eros em meio à criação do artista-poeta. A língua do poeta – mesmo que não o diga expressamente – é a língua que lambe o Eros. A língua lambe e é lambida e se forma a poesia do texto carnal.

O texto se faz carne. A carne se faz texto. A partir daí se configura o espectro, o panorama fascinante da escolha do poeta pela palavra sensual. E essa escolha pressupõe riscos, ainda mais numa sociedade em que o corpo e o apetite pelo prazer ainda estão quase que totalmente escondidos, numa espécie de clandestinidade absurda. Firma-se tristemente a ocultação do que se considera – muitas vezes erroneamente – obsceno, daquilo que para alguns desafia o espírito e a sociedade do trabalho.

O obsceno é repetidamente eleito de forma inadequada, quando sequer deveria se configurar como tal, ou seja, fora da cena. A não ser quando instalado patologicamente na mente do receptor da informação erótica. Basta dizer que o que é obsceno hoje pode ser simplesmente erótico amanhã e isso também terá variações no que respeita ao espaço geográfico e social em que se encontre a manifestação poética que almeja tratar e retratar o corpo.

Aqui, então, surge logo uma pergunta inicial: o EROTISMO é parcialmente aceito e a PORNOGRAFIA condenada? Se sim, por quê? E até que ponto a poesia é erótica e até que ponto é pornográfica quando trata do corpo e do desejo do homem e da mulher e suas variações múltiplas? Dessa pergunta surgirão outras, como: Por que a poesia que escolhe essa temática tem sido colocada numa condição quase que eterna de clandestinidade, mesmo aquela que é sutilmente erótica, meramente sensual? Até quando a poesia sofrerá amarras sociais que impeçam sua exposição à luz solar, como a desta tarde em meio aos trópicos? Deverá se manter como segredo perene no universo restrito das alcovas e dos tabus? Em que a poesia erotizante pode transformar o mundo em que vivemos? Para melhor? Para o amor? O amor carnal não pode se revelar?

Concluo afirmando que o corpo é a nossa maravilha a ser eleita. O poeta tem, sim, que erotizar, independentemente de rótulos, censuras, entendimentos equivocados, má-fé dos outros, o poeta tem mesmo que ser transbordante nesse ofício. A boa poesia é a que leva ao orgasmo, seja ele intelectual ou mesmo sensorial ou físico. E isso tenderá a ser aceito à medida que as sociedades e os povos evoluam e passem a se aceitar. Sexo é civilização e não o contrário.

E isso termina se traduzindo numa tarefa política, de transformação do mundo e de oferta de uma alternativa que o envolva amorosamente. É necessário que reduzamos, cada vez mais nas sociedades, o campo de reprovação ao erótico e ao pornográfico, liberando, liberalizando falos e vaginas e o corpo como um todo. Isso para que o corpo da palavra também seja íntegro, integral, sem as amarras e violações que a tornem só meia-palavra, um poema carnal doente, fraturado, castrado, violado. Isso jamais será poesia. Poesia de verdade, em última análise, é COPO transbordante. Poesia é o CORPO livre e pleno, até mesmo, quem sabe, dirigindo-se ao hedonismo radical.

De tudo isso decorrerá talvez uma nova e louvável escolha ético-política e estético-poética. Drummond já adiantava essa lição, em seu Brejo das Almas, 1934:

Em face dos últimos acontecimentos

(Carlos Drummond de Andrade)

Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?
Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros
sejamos tudo que quiserem,
sobretudo pornográficos.
A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).
Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.
Propõe isso ao teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?

Comments

There are 7 comments for this article
  1. Tácito Costa
    Tácito Costa 10 de Novembro de 2013 12:30

    Lívio, muito oportuna a sua abordagem. Levanta questões por demais pertinentes sobre as quais devemos refletir. Acerca esse tema o poeta e ensaista mexicano Octavio Paz escreveu um livro fundamental, “A dupla chama – amor e erotismo”. Também deste magistral autor gosto muito de “O arco e a lira”.

  2. Lívio Oliveira 10 de Novembro de 2013 18:58

    Amigo Tácito, obrigado. Tenho procurado “A dupla chama…” de Paz. Possuo “Signos em Rotação” e “O arco e a lira”. Abraço. Ou melhor: abraçaço!

  3. Danclads Andrade 10 de Novembro de 2013 22:03

    O erótico e o pornográfico sofrem variações de tempo e lugar e seus conceitos e limites são de difícil definição.

    Um exemplo foi o que aconteceu com o quadro de Vermeer, denominado “A menina com colar”, o qual foi considerado obsceno, uma vez que mostrava parte do pescoço da jovem, o que era algo reprovável na Holanda do século XVI.

    Algumas músicas, também, já foram consideradas pornográficas, como aconteceu com “Madrugada e Amor”, de Núbia Lafayete, a qual não deveria ser cantada por “moças de respeito, etc…”, conforme Ednar me conta, pois na sua infância adorava ouvir esta música, pela sonoridade que chegava ao seu ouvido, vinda dos parques e das festas – naquela época feitas nas ruas. Certa vez, tentou cantar esta música e foi repreendida pelos mais velhos, sob a alegação de ser pornográfica e que uma menina bonitinha e de família não poderia cantar aquilo. Tais obras, hoje em dia, não têm a mesma conotação de antes.

    Hoje em dia há uma maior tolerância em relação ao tema. Livros, quadros, músicas que tratam explicitamente do tema tem caído no gosto popular sem aquele pudor (ou falso pudor) de épocas pretéritas. Diria até que há uma exacerbação do pornográfico e do erótico, o que coloca mais névoas na descoberta dos limites entre ambos.

    Muito bom e oportuno, como já afirmou Tácito, seu texto Lívio.

  4. thiago gonzaga. 11 de Novembro de 2013 0:01

    Caro Lívio Oliveira, você esta cada vez melhor.
    Seus textos estão muito show, todos, todos mesmo.
    Parabéns.

  5. Lívio Oliveira 11 de Novembro de 2013 4:01

    Beleza de comentário, amigo Danclads.

  6. Anchieta Rolim 11 de Novembro de 2013 11:05

    Eita que o SP tá botando pra quebrar. Só postagens de alto nível. Lívio, esse texto tá massa demais!

  7. Lívio Oliveira 11 de Novembro de 2013 12:29

    Fico grato, Thiago e Anchieta, pela leitura do texto e comentários. Abraços.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP