Poesia e penúria em Fernando Monteiro

Refratário aos modismos da modernidade, o poeta Fernando Monteiro volta a questioná-los, com sua “mauvaise conscience”, em seu novo livro, um tríduo de poemas longos que namoram a Antiguidade e que questionam com poesia a razão de ser da poesia num mundo pouco sensível às sutilezas dessa arte. O título do livro Mattinata remete, para muitos, diretamente a uma lírica canção de Ruggiero Leoncavallo: “L’aurora de bianco vestita, già l’uscio dischiude al gran sol […]”.

Mas não se trata de qualquer celebração matinal esse Mattinata de Fernando Monteiro. Na entrevista que concedeu ao Diário de Pernambuco na edição do dia 13 de maio último sobre esse novo livro, o poeta pôde expor ao tradicional veículo dos Associados suas preocupações mais urgentes na quadra dos sessentanos. Escritor de combate, ele assesta suas baterias verbais contra o que denomina de “literatura feita com lixo”. Dá para se depreender, à falta de maiores esclarecimentos, que o escritor se refere à vasta e incessante produção de best-sellers que inundam e abarrotam as livrarias, e que nos últimos anos explora o filão dos vampiros, duendes, bruxos e que tais, sem descuidar das receitas fáceis do tipo “faça você mesmo”.

Romancista em suspense, Fernando também vê com visível desconfiança a moda do romance em curso país afora. E distila ironia: “O zelador do meu prédio é romancista; a Vera Fischer é romancista. Eike Batista talvez seja romancista”. Por trás disso, vê uma corrida aos prêmios literários – onde o romance parece capitalizar os melhores galardões. Como escrever romances em tempos assim, poderia se perguntar o poeta, parodiando o título de seu poema longo “Para que ser poeta em tempos de penúria?”, que integra Mattinata. Daí seu atual distanciamento do gênero fundado por Cervantes.

Resta, portanto, a poesia, mas sob uma condição: a forma de poema longo, como, aliás, ele vem fazendo nos últimos anos, após um interregno de romances, contos e biografias, e como fez em seus começos com Memória do mar sublevado (1973). E é nela que Fernando Monteiro joga suas fichas, mas sem perder de vista o foco narrativo ou, aproveitando uma expressão de Dámaso Alonso, dando-lhes um “contenido novelesco”, um curso narrativo, enfim.

Fernando assinala na entrevista ao DP que o poema longo é um gênero pouco cultivado nas letras brasileiras de hoje. Cita, entre os seus pares, os nomes de Marcus Acccioly (pensando em seu épico “Latinomérica”) e em César Leal (sem referência). Poderia ter citado também seu contemporâneo Alberto Cunha Melo, autor de poemas longos como “Yacala” (1992) ou “Meditação sob os lajedos”. Este, aliás, parece guardar alguma afinidade temática com “Escritos no túmulo”, do autor de Armada América.

“Escritos do túmulo” tem outra singularidade: sob o silêncio tumular das pedras alinhadas, o autor lê valores que assimila em contraponto ao desvario de nossa época. A certa altura da entrevista, não hesita em confessar sua admiração pelo mundo gerado pelo paganismo, como um novo Adriano à beira das ruínas do templo de Diana, em Éfeso, como evocado num livro famoso de La Beauvoir.

A entrevista termina com um comentário de Fernando Monteiro sobre seu poema longo “Para que ser poeta em tempos de penúria?”, que, de certo modo, retifica uma primeira reação gerada pelo poema, quando de sua publicação em blogs e jornais em 2010, ano de falecimento do Roberto Piva e formulador da pergunta-título.

Por trás do ceticismo de Fernando Monteiro, ceticismo esse que costuma acometer escritores, mas também artistas e não artistas, filósofos e não filósofos, indistintamente, lê-se subliminarmente uma crença – saudável – na poesia. A pergunta que ele formula, portanto, ganha novo sentido: os poetas existem também para denunciar a penúria do mundo.

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Comments

There are 2 comments for this article
  1. Fernando Monteiro 18 de Maio de 2012 18:16

    Acabo de chegar ao Recife, e tenho o prazer de ler,
    encantado, a sua precisa resenha do livro, estampada
    no nosso Substantivo Plural.

    Com o seu bisturi crítico — sempre agudo e percuciente —
    você vai ao(s) âmago(s) dos três momentos do “Mattinata”
    (tendo sido o único, até agora, que remeteu também para
    a música de Leoncavallo uma das eferências — esta, bem
    mais clara — do primeiro poema)…

    Obrigado, mais uma vez, Nelson, pela leitura de escritor e
    humanista como poucos entre nós.

    Abraçp forte,

    Fernando

  2. Pingback: Mattinata, de Fernando Monteiro | Milton Ribeiro

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