Poesia e resistência: entrevista com João Batista de Morais Neto

Por Marcel Lúcio *

João Batista de Morais Neto é um ícone da contracultura norte-rio-grandense.

Poeta extremamente crítico às convenções sociais, busca uma forma literária compatível aos seus ideais.

Talvez você nunca tenha escutado uma palavra sobre o poeta João, mas isso não foi por acaso. Ocorre por coerência de princípios literários: João faz parte da resistência ao pensamento hegemônico e à sociedade de aparências.

João integrou a Geração Mimeógrafo (também denominada Alternativa ou Marginal). Nos anos 60, 70 e 80, em todo o país, poetas e escritores procuraram uma expressão que revelasse, com simplicidade de recursos, posturas contrárias ao artificialismo literário e ao pensamento autoritário.

Em 1986, João, na rua, publicou um livro que se tornou um marco da literatura potiguar contemporânea: “Temporada de ingênios”.

“Temporada de ingênios” dialoga com a literatura universal e realiza um raio-x da intelectualidade alternativa do período. A forma é revolucionária: romance-minuto, prosa-poema.

João, em sintonia com as concepções de sua geração, prefere manter-se à margem: cultiva uma intensa produção poética e ensaística, rejeita a ostentação, banalidade e conveniência social.

João é um modelo de resistência e integridade para todos nós: representa um ponto de inflexão diante do poder.

Em novembro do ano passado, lançou o livro de poemas “O veneno do silêncio”. Nas próximas linhas, você tem o resultado de uma breve conversa com o poeta.

– Para que serve a poesia?

João: – Sendo a poesia um inutensílio, no dizer de Manoel de Barros, ela não se presta a servir às demandas imediatas do capitalismo. A poesia fica na contramão. Para o poeta russo Maiakovski, “a poesia toda é uma viagem ao desconhecido”. Certamente, como linguagem criativa, ela se associa à expressão da sensibilidade.

– Existe uma poesia norte-rio-grandense?

João: – Este Estado possui uma produção significativa de poesia, com qualidade indiscutível. Basta citar alguns nomes: Zila Mamede, Jorge Fernandes, Marize Castro, Jarbas Martins, Adriano de Sousa.

– Como você define a Geração Mimeógrafo com o olhar dos dias de hoje, quase 30 anos depois?

João: – Olha, essa geração fica pelo que produziu de melhor. A questão da margem é uma constante na produção poética. Poesia já é um produto difícil de circular e quando rompe com alguns padrões, a recepção é mais complicada. Penso que já é hora de ser feito um trabalho sério de recepção crítica da produção daquela época.

– Você é conhecido como um “poeta marginal”, sua obra é marcada pela ruptura em relação à tradição literária; ao mesmo tempo, você exerce a atividade de crítico de literatura, tendo publicado, por exemplo, um ensaio sobre o poeta Ferreira Itajubá, considerado um clássico das letras potiguares. Então, a pergunta: existe algo que aproxime Itajubá dos poetas marginais dos anos 80?

João: – Outro dia li uma observação feita pela professora Heloísa Buarque de Hollanda, em que ela diz que os poetas marginais estão canonizados. Aqueles da década de 70 que foram estudados por ela. Não, eu hoje já não me enquadro nesse rótulo, que ficou datado. Minha pouca produção poética, inclusive, já não se vincula a isso. São poemas de um quase cinquentão. Agora é uma poesia crítica que dialoga com a minha atividade de crítica literária. Quanto a Itajubá ele é considerado um poeta popular, mas mesmo assim sua poesia destoa da linguagem e dos interesses da estética marginal dos anos 70/80. A temática e o estilo dele procuravam atender aos cânones da época.

– Recentemente, você lançou o livro O veneno do silêncio, que possui, por sinal, um excelente projeto gráfico e traz poemas que dialogam com o pensamento dos anos 80. O que você tem a dizer sobre o seu novo livro?

João: – Acho que já falei, indiretamente, em pergunta anterior. O projeto gráfico pensado por mim, teve uma ótima execução de Alexandre Oliveira, que é um excelente designer gráfico. No livro, eu dedico poemas a alguns poetas daquela época, mas vejo que a linguagem é de hoje, não tem os traços dos anos 80.

– A relação literatura e política é possível? Como?

João: – Claro. Necessariamente o texto literário para ser político não precisa ser panfletário. Mas como intervenção no mundo, de forma crítica, a literatura é política.

– O IFRN é uma escola técnica? Existe produção artística no IFRN?

João: – Penso que com o espaço do Campus Cidade Alta seja possível acontecer, de fato, uma produção artística que possa intervir culturalmente no RN.

– João Batista de Morais Neto ou João da Rua?

João: – João Batista de Morais Neto. O outro corresponde a um heterônimo da década de 80.

Obras de João Batista de Morais Neto

1979 – Livro de bolso (mimeografado)
1986 – Temporada de ingênios
2005 – Geração Alternativa ou um alô pra Helô
2006 – Temporada de ingênios e outros
2007 – A canção e o absurdo revisitados
2007 – Revendo Itajubá
2010 – O veneno do silêncio

* Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do IFRN – Campus Cidade Alta

Comments

There are 14 comments for this article
  1. Jarbas Martins 13 de Janeiro de 2011 11:00

    João Batista de Morais Neto, meu mestre e amigo.Já estou à espera do teu próximo livro que traz o prefácio do grande Jorge Salomão.Quando o teu
    livro será publicado, João? Abraços.

  2. joão batista 13 de Janeiro de 2011 15:01

    Jarbas,

    Você nunca mais visitou o Desalinhos. Um abraço

  3. Marcos Silva
    Marcos Silva 13 de Janeiro de 2011 17:34

    João:

    Gostei de ler sua entrrevista. Um abraço.

  4. Jóis Alberto 13 de Janeiro de 2011 18:18

    Valeu, João! Muito boa a entrevista. Parabéns ao professor Marcel Lúcio, pela iniciativa da entrevista; e ao editor deste site, Tácito Costa, pela divulgação de um dos melhores poetas do Rio Grande do Norte. Mais um bom trabalho do Substantivo Plural, espaço já tradicional que reúne gente sempre muito talentosa.

  5. tete bezerra 13 de Janeiro de 2011 18:59

    Juan de la Calle é a maior autoridade em cultura undergroud,até porque viveu a época como manda à risca,foi um dos organizadores do festival do forte,poeta,crítico literário,hoje na academia,é doutor em literatura comparada,não se contamimou pelo academicismo que torna as leituras literárias tão enfadonhas.Implico com ele porque tem escrito pouco,pra quem não sabe,ele é um excelente cronista,além de poeta,quem sabe em 2011 ele decida publicar mais,o leitor exigente agradece!

  6. Belchior de Vasconcelos Leite 13 de Janeiro de 2011 22:08

    João, muito boa sua entrevista, a descrição de algumas de suas características estão perfeitas.Como poeta marginal ou da contra cultura não lhe visualizo como João Batista Morais, fica melhor João da Rua.Parabéns e um abraço.

  7. joão batista 13 de Janeiro de 2011 23:22

    Agradeço a Jarbas, Marcos Silva, Tetê, Jois, Belchior. Ao Tácito também. Feliz 2011!

  8. carlos de souza 14 de Janeiro de 2011 10:23

    vou comentar o livro de joão na minha coluna da próxima quarta-feira. é um privilégio ser amigo desse cara.

  9. Carito 14 de Janeiro de 2011 10:41

    João – da Rua, de La Calle, Batista de Morais Neto… sou fã, como quem é fã de um ídolo de rock, pra mim João sempre foi rock-mpb-underground- poesiamarginal-vanguarda-pop-e-na-dele-ao-mesmo-intento. João abriu minha cabeça naquela época de Temporada de ingênios, expandiu minha consciência como um ácido humano, João e toda aquela trupe que conheci através do meu amigo Afonso Martins que fazia a faculdade de arquitetura comigo. E Tetê tem razão – João precisa publicar mais, por horas a fio, por romances-minutos a cios…

  10. Marcel Lúcio 14 de Janeiro de 2011 15:11

    Também sou fã de João Batista.
    Desde minha adolescência, nos anos 90, possuo admiração por sua produção literária.
    Ele e outros artistas aqui do Estado são muito interessantes e deveriam ser observados com mais atenção, como, por exemplo, Antonio Ronaldo, Adriano de Sousa e Carlos de Sousa.

  11. Marcelino (Júnior) 14 de Janeiro de 2011 21:15

    João, concordo com Tetê: vc., como grande observador da cena literária, está em débito, precisa escrever mais…

  12. Pablo Capistrano 15 de Janeiro de 2011 12:02

    Parabéns pela entrevista João,
    sempre nas trincheiras da poesia e nas fronteiras da linguagem.
    keep on the beat!

  13. Geraldo Alves Spinelli Júnior 17 de Janeiro de 2011 18:59

    Alguns anos atrás, creio que nos anos 80, fiz uma música homenageando uma galera que despertou minha admiração e respeito, a letra é assim:

    Seu tivesse a inteligência de um João da Rua, escrevia um artigo no jornal, de cultura e poesia envenenado pra zombar dos caretas de Natal, seria assim o grande heroi dessa cidade, o super homem que nos fala o gibi, seria assim pelos seus filhos festejados, como um rei, um guru, ou mártir.
    Seu tivesse a coragem de um Luciano, pra travar uma luta desigual, lutaria contra os Alves e os Maias essa gente que domina em Natal, seria assim o grande heroi dessa cidade, o super homem que nos fala o gibi, seria assim pelos seus filhos festejados, com o um rei, um guru, ou um mártir.
    Seu tivesse a criatividade de um Falves, escrevia a história só com imagens, alargava o horizonte de voces, o presente, o passado e o futuro de uma vez, seria assim o grande heroi dessa cidade, o super homem que nos fala o gibi, seria assim pelos seus filhos festejados, como um rei, um guru, ou um mártir.

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