Poesia e retidão

Por José Castello
O GLOBO

O amor — como a poesia — também é oblíquo. Também se constitui de quase nada

A verdade é oblíqua. Não tem a clareza que lhe atribuímos, tampouco a simplicidade que dela esperamos. Impõe-se de modo torto e sinuoso. Não conseguimos encará-la, mas apenas vislumbrá-la. A verdade é que a verdade é o maior problema oferecido aos homens. Só com delicadeza e de modo transverso conseguimos acessá-la. Só aos poucos, com cuidado, e sem esperar uma grande resposta, somos capazes de roçar o seu ventre.

Essas ideias estão no centro de “Diga toda a verdade — em modo oblíquo”, novo livro de contos de Carmen L. Oliveira (Rocco). A autora se consagrou com “Flores raras e banalíssimas”, sua bela (e oblíqua) biografia da poeta norte-americana Elizabeth Bishop. Conserva a mesma escrita sutil no novo livro de relatos breves.

Carmen conserva, ainda, o mesmo apreço pela poesia: toma o título emprestado de um poema de outra grande poeta, Emily Dickinson. O conto que empresta seu título ao livro traz, ele também, uma inspiradora epígrafe, retirada da poesia de Dickinson: “Para fazer uma campina/ Basta um trevo e uma abelha/ E fantasia./ Quando as abelhas estão em falta,/ A fantasia basta”.

E eis que Carmen chega ao último reduto do poeta, ali onde ele não só se esconde, mas produz: a fantasia. O conto — o mais belo da coletânea — é um exemplo vivo disso. Silvia, a narradora, chegou aos Estados Unidos para estudar poesia. Aproxima-se de Imena — pelo menos assim ela se apresenta —, uma colega de turma que é também freira. A aproximação entre as duas é lenta, cheia de meias palavras, de silêncios: é poética. É uma sutil história de amor, que se costura nas entrelinhas.

O tema do conto, a princípio, é banal: o primeiro dia de aula em uma universidade. A aula, de poesia, é, a rigor, uma impossibilidade, uma vez que poesia não se ensina. Quando você tenta ensiná-la, você a mata. É como se você esfaqueasse um peixe, mas o corpo morto — escorregadio e brilhante — escapasse de suas mãos.

Embora ame a poesia, Silvia sabe que jamais será poeta. Jamais fará uma poesia sobre a dor. Jamais fará uma poesia, uma vez que todo poema fala da dor. Nem mesmo tradutora de poesia ela pretende ser. “Tem certas coisas que só na língua original. Um sabiá não é um oriole”.

Ao contrário, o nome que a freira lhe oferece, Imena, em árabe significa “fé”. Fé na poesia? Mas poesia é questão de fé? Poesia é outra coisa: é travessia. O poeta carrega seu corpo junto com o poema, daí a dor inevitável. Não olha para o além, mas para si. Não busca o transcendente — mesmo que alguns acreditem nisso —, mas o risco das palavras. É Imena, a freira, quem lhe empresta um livro de poemas de Emily Dickinson, “com diversos pedaços de papel marcando poemas para os quais ela chamava minha atenção”.

Certa manhã, as duas passeiam às margens do rio. “O sol fulgurava. As árvores multicoloridas eram espelhadas na água. Esplendor”. Silvia faz uma descoberta: a poesia se derrama sobre o mu n d o . Ela o abastece de delicadeza. Ela o perfura com suas imagens em forma de lâmina. O único gesto de amor entre elas? Mãos dadas. O amor — como a poesia — também é oblíquo. Também se constitui de quase nada.

Depois de ler o livro da senhora Dickinson, Silvia o devolve com apenas uma página marcada. Deseja assinalar um poema que começa assim: “A alma escolhe sua sociedade/ depois se fecha ” . O amor se faz de exclusividades. É único. É insubstituível. É inexplicável — e por isso, observado desde fora, é sempre um tanto ridículo. De Imena, recebe sempre o mesmo silêncio. Estranho silêncio: algo que nada diz, mas, justamente por isso, diz sim.

É Imena quem, ao lhe passar o livro novamente, assinala o verso que dá título ao conto e ao livro: “Diga toda a verdade — em modo oblíquo”. Reflete Silvia: “Entendo que é sua resposta para ‘fecha a porta’”. Parece fechada, mas está entreaberta. Só corações sutis possuem a chave. O amor se faz desses desencontros que, a seu modo, costuram um encontro. Você erra, erra, erra. Depois se desvia, se inclina, escapa. Mas está sempre ali: então ama.

Tudo isso se lê no diário que Silvia escreve em seus intervalos de aula. O conto tem a forma de um diário. Dá saltos, muda de assunto, desvia-se. A escrita é oblíqua. Escrita reta, límpida, só em relatórios. Mas existem momentos, pensa Silvia, em que a verdade deve ser dita de modo direto. Isso acontece quando ela recebe um bilhete de Imena comunicando uma viagem inesperada a Baltimore. O bilhete termina com um PS enigmático: “Uma palavra para você, em português: bonita”.

Rumina Silvia, decepcionada: “A gente não deve ser oblíqua quando está de partida, minha querida”. Existem momentos na vida que exigem uma súbita retidão. Momentos em que a poesia se encolhe e a verdade a esmaga. É nisso que pensa Silvia, enquanto rumina sua tristeza. Fica sozinha — e a solidão não é nada poética, é áspera e pesada.

Na aula, recebe uma estranha nota “E”, quando as avaliações conhecidas variam apenas de “A” a “D”. Pergunta ao professor o motivo. “Você não registrou suas fontes”. Reflete Silvia, poeta sem saber: “Fiquei numa sinuca, pois não tinha recorrido à opinião de ninguém, a não ser à minha”. Sua autonomia é vista como lixo. Sua coragem em assumir a própria voz, como desleixo. Descobre que o saber autônomo atemoriza.

A amiga lhe manda de Baltimore um presente. Um livrinho com desenhos de flores. Sob uma das imagens, uma legenda de Shakespeare: “Como são pobres os que não têm paciência!” É por vias obscuras, mais uma vez, que Imena lhe pede que a espere. Encontra Silvia, sob outra ilustração floral, um pensamento de Alfred de Musset que resume sua situação: “uma lembrança feliz nessa terra talvez seja mais feliz do que a felicidade”.

Paro por aqui: deixo o conto pelo meio, para o prazer do leitor. Penso, então, em Carmen e no modo como a poesia se infiltra em sua prosa. Prosa poética? Mas não se trata de cadastrar. Não se trata de fechar, mas de deixar a porta entreaberta. E é isso o que ela faz. Um outro conto, “A Grande Autora e sua escudeira”, começa com uma epígrafe de Clarice Lispector que resume sua estratégia. Diz Clarice: “Eu não preciso me entender. Que eu vagamente me sinta já me basta”.

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Jarbas Martins 22 de Abril de 2012 18:32

    HAI-CAI: Poética recusa: / não ler meu verso inscrito/ sob a tua blusa.

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