Poesia? Ora, para quê mesmo?

Por Lívio Oliveira

Tantos temas me vêm à mente…tantos, enquanto leio Nuccio Ordine e seu mais do que oportuno manifesto em prol das coisas inúteis e preciosas – oximoro contemporâneo que socorre e mantém a fé na arte, contra a lógica do utilitarismo “capeta/lista” (socorrei-me, São Gentileza!). Assuntos do presente, do passado…anos de luta, muitas vitórias, mesmo que pontuadas por derrotas ocasionais e não definitivas, não terminativas – graças a esse combate incessante e firme – o medo nos jogando para a frente e para cima. Em frente e em cima, vislumbro que vale filtrar tudo pelo olhar e pela voz da poesia. E seguir na estrada. É o furo do futuro. É o que nos salva – “a poesia salva” (está na capa de “O Galo”, leiam todos) – em meio a tantas preocupações, perturbações, dores e dilemas de nossa época.

O que salva é a arte e a poesia que está em tudo, basta ficar atento às armadilhas dos que nos querem obnubilar a visão. E é óbvio que importa ficar ereto, fortalecido diante dos problemas, guardando energias para percorrer e sair incólume e vivo do labirinto. Lá fora há cor, há brilho, há luz, há sol. O Minotauro já morreu, antecipadamente velho e apodrecido. A escuridão e os seus pregadores permanentes e sombrios ficaram e ficarão para trás, mas não deverão ser esquecidos por nós. A vigilância é sempre necessária. A poesia se impõe nessas horas mais dificultosas, como um elemento essencial da vigília. Como escudo e uma espada de fina e rija lâmina. Que deverão ser usados, se necessário.

E ainda tem gente que repete a pergunta: Poesia…pra quê? Ora, pra nada e pra tudo! Para que a vida se imponha e não sobre espaço às ideias e as trapaças da morte. Para que as cores da paleta encham os céus e os mares e os campos e as cidades, daqui até o horizonte inóspito e cheio de esperanças. Para que o delírio seja a nossa arma (o “delírio criativo”, como nos propõe Antonius Manso, figura espetacular do Alexym/Alecrim). Que lutemos e alcancemos o que há de possível e impossível (deve ser essa a ideia certeira do “Possibilismo” do querido e colossal artista Marcelus Bob) e que saibamos conversar aos miados com o belo gato analista, o bichano Freud, dos meus amigos Danielle Brito e Augusto Lula.
Conversemos, sim, com nossas consciências e nossas levezas traduzindo. Façamos a transcriação dos mundos externo e interno. Não nos deixemos abater e sigamos na estrada, acompanhados dos companheiros de todas as tribos (Risério nos exibe a beleza das línguas indígenas), todas as sensibilidades, até o sol ou até o Mirassol. Na árvore luminosa deixaremos dependurados nossos corações, porque já ganhamos outros embebidos em poesia e virtude. E vivamos as nossas vidas, trajetórias construídas com as nossas próprias mãos, com as dores e as delícias que elas colherem pelo caminho.

Esse, o selo da autenticidade: Fazer nossa poesia, boa ou ferida, mas a nossa, nossa palavra inteirinha, não a dos outros. Não plagiemos vidas. Não sejamos vampiros da biografia e da poesia alheia – nem em palavras e nem em essência – o que não valerá jamais, com métrica ou sem métrica, que isso nem importa tanto. O que importa é cantar. O que importa, na vida e na poesia, é o ritmo. É a canção interior e contínua. É não parar, para que a bicicleta do “Passeante” (como intitulei obra plástica do internacional Fábio Ojuara) do tempo e da alegria não penda para a queda espalhafatosa no chão. O equilíbrio em tatear a vida e travar o combate de forma justa, reta. As feridas são curadas, no caminho mesmo, pelas companheiras e companheiros, amigas e amigos.

Fazer o quê? Sacodir a poeira, como diz a vetusta canção. E prosseguir, com coragem guardada e renovada nos bisacos. Montaremos os nossos cavalos-de-Tróia (lembrando uma canção desse artista que admiro, Romildo Soares) e os domaremos. As armas dos covardes não vencerão as almas das mulheres e homens íntegros. Temos milhões de exemplos. Teremos. Basta lembrar Pasolini e Lorca no mundo (Nesta semana, vi que monumento a Pasolini em Roma foi atacado por fascistóides. E também garimpei em Abimael obra sobre “A Morte de Lorca”, Ian Gibson: “Com ele, morria na Espanha a poesia” – tudo isso nos escancarando o refluxo do ódio, ontem e hoje, e que precisamos nos unir e nos proteger). A poesia precisa. A prosa amiga passeia unida. Precisa. Aqui e noutros cantos. Precisa e presente. Presente, como os que tombaram. Presentes, porque não tombaram.

A poesia é o nosso mais forte pilar de resistência. Acima e além dos muros aprisionantes, acima e além dos arrecifes artificiais que desviam o caminho da onda, mas não impedem que estoure em direção à praia e molhe de amor os nossos pés. Resistamos. Não fiquemos sós, ilhados, isolados, sorumbáticos, macambúzios. O filósofo-poeta já nos avisou: “a alegria é a força maior”. Há afetuosos abraços e beijos a distribuir. Há poemas a declamar e a escrever. Há tintas para colorir os muros com o graffiti da esperança, não com as pichações negrincinzentas e desalegres dos odiosos que odeiam. Atentem que o gigante do Poema/Processo, Falves Silva, coração incendiado por nossa perene Terezinha de Jesus, já me antecipou que ainda “não chegamos ao fim do fim-do-mundo”. E nem tão cedo isso virá. A poesia não permite. A poesia está viva e está comigo e com todos vocês. E nos salva e protege. Amem. Amém.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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